sábado, 11 de junho de 2011

MAIS UM POUCO DE FILOSOFIA DE FACEBOOK



Se menina, estrela na testa
Se mulher, fogo incontido
Sou rico do que não presta
Sou pobre caso perdido
Seu olhar me faz poeta
Seu corpo me faz bandido
(da canção “Poeta e  Bandido”, de Zé Geraldo e Carlos Guerson)

Não amo ninguém pela beleza, intelecto ou caráter... nem sei dizer por que amo... o amor é o mais incondicional dos sentimentos... o amor não suporta motivos, explicações... o amor se justifica por si mesmo, e não há racionalidade que o dome... falar de amor já é não-amar... amor não se sabe, não se pensa, sequer se sente... AMOR SE VIVE

Eu costumo dizer que tentar ser mais maluco do que todo mundo é inútil, porque quando a gente pensa que chegou no fundo do poço, sempre vem um desgraçado e faz pior.

Nascer e morrer são situações nas quais estamos completamente sozinhos, ninguém nos acompanha nessas duas viagens. São as únicas certezas que temos na vida. Entre um e outro pairam apenas pontos de interrogação existenciais, potencialidade pura. Nascemos e morremos por acidente, e vivemos pela fé - Rodrigo "kierkegaardeando".

O passado nao pode ser modificado, mas ele pode ser recontado, reescrito com outras palavras, e com isso ser ressignificado. Um novo passado pode ser a chave para um novo futuro.

No fundo, no fundo, a vida é feita de perdas e de renúncias. Cada vez que escolhemos um caminho a seguir, estamos automaticamente renunciando à todos os outros caminhos possíveis naquele momento. E nos tornamos sábios quando conseguimos fazer essa escolha sem a dúvida de como seria se nossa decisão fosse diferente, ainda que o resultado de nossa escolha não nos agrade.

A astronomia amadora me ensina mais filosofia do que eu mesmo poderia pensar. Hoje sei que muitas vezes nossos piores problemas podem nos ensinar as lições que mais nos farão crescer como pessoa. Aprendi isso descobrindo que é quando a noite está mais escura que podemos melhor observar os corpos celestes.

Saturno a olho nu parece uma estrela comum, pequena inclusive, se comparada com Sirius. Pelo binóculo, torna-se como uma amêndoa vermelha. O telescópio mostra o círculo com o disco que vemos nos livros, agora de cor prata. Não sei que aparência ele teria se eu fosse lá. Assim a astronomia amadora demonstra como diferentes pontos de vista mostram a mesma realidade de formas diferentes.

A Bíblia é quase sempre mal interpretada. Precisamos de nossas individualidades. Se duas pessoas, ao se unirem, se tornarem uma só coisa, tudo o que vai acontecer é que, caso elas se separem, sobrarão apenas duas metades.

Num mundo em que ser normal é empreender uma busca desenfreada para seguir todas as modas, tendências e padrões que nos são impostos por uma sociedade doente, viciada em consumo, a loucura pode ser um grito de libertação.

A maioria das pessoas já falecidas que admiro só tiveram suas ideias e seus valores reconhecidos depois de suas mortes. Espero que tão cedo ninguém me descubra como um gênio...

Meus olhos de nuvem
Choram de alegria
Para regar o seu sorriso

Na tez morena
Abre-se em branco
A cor do seu sorriso
 
No jardim que plantaste
Em meu fértil coração
Cavaste sua sepultura
 
O que perdoar não é:
Perdoar não é concordar com a ofensa: isso se chama "conivência";
Perdoar não é esquecer que a ofensa existiu: isso se chama "amnésia" (pode nos levar a cometer ofensa igual, no futuro);
Perdoar é não concordar com a ofensa, é não esquecer que ela ocorreu, até para podermos aprender e ensinar com ela, mas é no fim dizer: "isso não importa mais".

A Justiça, quando exercida com Compaixão, leva-nos sempre a perdoar. Justiça sem Compaixão é apenas vingança.

Defender o indefensável, argumentar o "inargumentável", pedir o impossível, aceitar o que é anaceitável, crer no que é incrível... só a fé nos permite superarmos os limites de nossa racionalidade, e mais, de nosso senso de justiça. Mas o coração estranhamente não nos deixa desistir - Rodrigo Kierkegaardeando.

Nossas relações humanas seriam muito melhores se tivéssemos sempre disposição de ânimo de tentar entender as motivações que levam as pessoas a fazerem o que fazem. E entender não significa necessariamente concordar. A Compaixão é um sentimento tão bom, que ela consegue ser, no final das contas, mais justa do que a própria Justiça.

                  Vendo meu "acervo artístico", percebi que eu jamais compus uma canção de amor enquanto estava amando. Amar parece fazer adormecer o compositor, ainda que desperte o poeta. E é bom que minhas canções de amor não sejam autobiográficas, porque à exceção de uma, todas elas são canções tristes.

                  E por trás do vidro da janela do carro, o menino vê a chuva lentamente demolir o seu castelo de areia... (dedicado aos meus amigos)
                  Mesmo depois da rosa se despetalar, ainda sobram os espinhos. E esses, talvez por saudade, talvez por despeito, desenham com sangue novas rosas vermelhas nos imprudentes dedos do jardineiro amador (dedicado aos meus amigos)





 


sexta-feira, 3 de junho de 2011

O Monstro da Dúvida (baseado no "Mágico de Oz")

Mas a dúvida é o preço da pureza, e é inútil ter certeza
(da canção "Infinita Highway", dos Engenheiros do Hawaii)

Queira, basta ser sincero e desejar profundo
Você será capaz de sacudir o mundo, vai
Tente outra vez
(da canção "Tente Outra Vez", de Raul Seixas

           De todos os monstros a habitarem as profundezas de nosso ser, nenhum deles mostra suas garras afiadas de forma tão cruel, sádica e torpe quanto aquele conhecido como “Dúvida”. Trata-se talvez da criatura mais perversa, dentre todos os nossos monstros internos, por ter o sinistro poder de a todo momento mudar de forma.
           Em certos momentos, a dúvida surge tal fada-madrinha, a nos afagar o rosto, apontando-nos uma felicidade que nos acena, logo ali, no final da estrada de pedras amarelas. A face terna da dúvida se traduz no frio na espinha, na expectativa de um acontecimento bom, nos olhos que se fecham para que a visão da alma possa desenhar o quadro mais belo que o pincel do futuro está pronto para pintar na tela de nossas vidas. O coração acelerado pela simples contemplação da pura potencialidade do amanhã travesso, que como num jogo de criança insiste em esconder o próprio rosto, negando-nos a beleza de suas feições, torna-se instrumento musical, a dar o tom e o compasso para a dança da dúvida, aqui divindade bela e bondosa, sempre a nos fazer olhar para a frente. Porque ela está a todo o tempo afirmando que no final da estrada de pedras amarelas, nos esperam as maravilhas da cidade de Oz.
           Mas daí surge o aspecto mais monstruoso da dúvida: a todo momento ela muda de forma, quase sempre com a caprichosa mania de contrariar as expectativas de nossos corações e mentes já fartos de caminhar pela corda bamba da vida. E da criatura suave e maternal nos apontando o sol prestes a nascer após o negror da noite, ela simplesmente se transmuta, vestindo o mais horrendo dos trajes. Assim, a fada de vestes sedosas dá lugar a uma bruxa trajada em negro, maquiavélica tanto quanto malévola, lasciva tanto quanto astuta. Para ela, a estrada de pedras amarelas tem ao seu fim um abismo sem fundo e inescapável, na verdade a garganta de outro monstro faminto, conhecido como “Desilusão”. A face sombria da dúvida sempre surge acompanhada de outros monstros, ávidos por dilacerar nossas almas, sedentos do suor de nossos pesadelos, deleitando-se, como se sinfonia fosse, com nossos gritos desesperados. Medo, Tristeza, Angústia, entre outros, são inseparáveis companheiros da Dúvida.
           O que fazer, então, diante de tão esquizofrenicamente cruel criatura? Sair em fuga desesperada é a mais tola das atitudes; não há como fugir de monstros que, em última análise, habitam nosso próprio ser. Estão dentro de nós, espelhos que são, de nossos aspectos mais sombrios. No fundo, são parte de nós, Legião que não podemos expulsar para nenhuma manada de porcos fora de nós mesmos. Não há manadas de porcos do lado de fora. O lado de fora é puro poder-vir-a-ser, pura conjectura. O lado de fora é o habitat natural da Dúvida. Cerrar então nossos ouvidos espirituais, para não ouvirmos o funesto discurso do monstro? Ela é obstinada, e não se dará por cansada de repetir suas piores admoestações, seus mais fúnebres sortilégios, até exaurir por completo todas as nossas forças.
           Não há como fugir de algo que está dentro na gente. A única solução contra esse monstro, então, seria o combate aberto, frente à frente com nosso inimigo, por mais poderoso que ele possa perecer. Mas é um combate que não pode ser travado com unhas e dentes, muito menos com espadas e escudos. Precisamos de outras armas, essas armas do espírito, afinal, nossos inimigos também são “espíritos”, não possuem materialidade. Armemo-nos, então, primeiramente de Coragem. Nobre arma de defesa, a Coragem não nos faz deixarmos de ver ou ouvir as ações atrozes de nossa inimiga, mas nos torna capazes de seguir em frente, de trilhar a estrada de pedras amarelas. A diferença? Não importa se a estrada termina em Oz ou na boca da Desilusão: o caminho precisa ser caminhado, a vida precisa seguir seu curso. E só a Coragem nos permite avançar na trilha do caminho.
           A segunda arma se chama Esperança. Arma com poderes mágicos, capaz de falar, não aos nossos ouvidos, mas aos nossos corações. Em cada momento de nossa caminhada pela estrada de pedras amarelas (na verdade a estrada da vida) em que sentirmos nossas forças exauridas pelas constantes maldições da Dúvida, a Esperança nos sussurra palavras de consolo, de admoestação, de exortação. E essas palavras tornam-se verdadeiros elixires ou pedras filosofais, não apenas renovando nossas forças, mas também devolvendo o fio à lâmina da Coragem.
           Com essas duas armas, somos capazes de enfrentar o monstro da Dúvida. Mas o que fazer se chegarmos ao fim da estrada de pedras amarelas, e ao invés das belezas de Oz, ou da bondade de seu Mágico, encontrarmos apenas o abismo da Desilusão? A Desilusão possui um aspecto amedrontador, terrível. Parece até mesmo mais poderosa do que sua prima-irmã Dúvida. Mas sucumbe frente ao golpe de uma única arma: o Amor.
           Não podemos deixar de caminhar na vida; a estrada de pedras amarelas precisa ser percorrida. E nesse percurso não há como não termos a companhia de nossos monstros existenciais, especialmente a tão poderosa quanto irracional Dúvida. E por não raras vezes, o fim da estrada será a boca da faminta Desilusão. Mas o Amor é arma que tudo vence, não importando o poder do inimigo, ou se ele vive dentro ou fora de nós. Amemos, então, pois o amor é uma arma que só tem existência quando posta em movimento, só existe no realizar-se, no amar. Sob o fio do Amor, todos os lugares são belos como Oz. O Amor é como as lentes que o Mágico de Oz fazia as pessoas usarem, a fim de que elas pensassem que a cidade na verdade era de toda feita de ouro. Mas também há uma diferença crucial: as lentes do Amor não produzem Ilusão (esta outro monstro, também irmã da Dúvida). As lentes do Amor não fazem todas as coisas parecerem feitas de ouro, elas fazem todas as coisas verdadeiramente passarem a ser feitas de ouro. Sob as lentes do Amor, tudo é áureo, tudo é dourado. Tudo brilha.

domingo, 29 de maio de 2011

NOVOS HAIKAIS E FILOSOFIA DE FACEBOOK


Mas eu sou o amargo da língua
A mãe, o pai e o avô
O filho que ainda não veio
O início, o fim e o meio


(da canção "Gîta", de Raul Seixas e Paulo Coelho)

           Quem navega por sites de redes sociais pode perceber como as pessoas têm apreço por frases de efeito, frases que tenham conteúdo em suas mensagens. Todavia, quase sempre são citações de pessoas famosas, filósofos, cientistas e artistas em sua maioria (e minha alma tem um pouco de cada um dos três). Num momento em que a intensidade de minha vida pessoal me faz ter pouco tempo para reflexões teóricas, gostaria de deixar meu amado leitor com uma filosofia um pouco menos estruturada, a partir de frases de minha própria autoria, postadas no site Facebook, bem como uma segunda remessa de Haikais. Creio que ambos podem falar muito não exatamente de minha filosofia, mas de mim mesmo como “filósofo”. Espero que gostem.


“Algumas pessoas são reconhecidas por terem algum talento, independentemente de seu caráter. Eu quero ser reconhecido, antes de tudo, pelo meu caráter, independentemente de quaisquer talentos que eu possa vir a ter”

“Perdido entre a ciência, a fé, a filosofia e a poesia, flutuando entre mesas de bar, estádios de futebol, cachoeiras e passeatas, girando entre a guitarra e a viola caipira, tendo Deus como fonte de inspiração de todo esse caos”
(Rodrigo por ele mesmo)

“A poesia talvez seja a minha maior maldição. O poeta é o ser que mais arranca lágrimas dos olhos das pessoas, ainda que por vezes sejam lágrimas de alegria. Não há nada mais vil do que tornar belo tudo o que é triste”

“Hispânica rima com promessa, que o espírito semeia ao grávido futuro, no afã de que se pinte a cor no cenário cinzento de um coração vazio, tal mandacaru a florescer em desertos prados”

“Eu amo a beleza física feminina, não posso negar. Mas não conheço nada mais afrodisíaco do que uma mulher inteligente”

“Será que eu comecei a olhar o céu em busca de uma resposta? A Lua, Saturno, Júpiter, os aglomerados de estrelas e as nebulosas são todos belos, bailam belamente pelo céu... mas teimam em se deixar contemplar por mim calados...”

“Se no fim da vida eu pudesse voltar no tempo, eu faria absolutamente tudo diferente do que fiz... não que eu não goste da minha vida, mas assim eu teria vivido duas vidas, e não uma única vida duas vezes”

“Toda crença solidamente embasada pode se dar ao luxo de um certo ceticismo. Normalmente, quando não somos capazes de tolerar quem pensa diferente de nós, é porque nós mesmos não estamos tão seguros assim em relação às nossas próprias ideias”

“Não consigo entender... Jesus nos prometeu o Reino de Deus, e em seu lugar veio a igreja”

“Ler a Bíblia de forma superficial me fez entrar para a igreja. Ler de forma aprofundada me fez sair dela”

HAIKAIS

No choro da viola
Faz-se a dor do violeiro
Em sorrisos da plateia

Eis que surge ao vento
O balé das folhas
Que desenham o outono

Mares são lágrimas
Derramadas pelo porto
Chorando a partida da embarcação

Vingou-se a rosa
A mão que a depedaçou
Ainda exala o seu perfume

O vento toca o rosto
Traz o beijo distante
Que insiste em ser beijado

Perdida entre aforismos
A Poesia clama
Vem, ó Liberdade!

Meu olhar procura
Velhas respostas
Para teus jovens “por quês”

No teatro de minha vida
Que a cortina desça
Sob aplausos da plateia

sábado, 14 de maio de 2011

HAIKAI - PEQUENA GRANDE POESIA

 Haikai... trata–se de pequenos poemas de origem japonesa. Com apenas três linhas, e tendo como foco a objetividade e a concisão, os Haikais nem por isso perdem a beleza ímpar, e soam como os antigos ditados da sabedoria popular. Confesso que durante toda a minha vida de poeta, jamais consegui compor Haikais de valor, mesmo no estilo mais livre da língua portuguesa. Mas como a inspiração nos surge às vezes sem que sequer o percebamos, ou mesmo peçamos, eis que me vi, como que do nada, escrevendo Haikais livres, sem rimas ou métricas. E já que esse blog também é destinado à poesia, queria deixar você, meu amado leitor, com o que é a primeira safra de Haikais de minha autoria. Peço perdão pelo mau jeito, por ser uma forma de arte na qual não sou versado, mas espero que os versos sejam de algum valor, que possam ser apreciados. Lembrem apenas que cada grupo de três linhas constitui um poema independente, com começo, meio e fim próprios.

Amor: subversão da matemática
Simbiótica comutatividade
Multiplica-se ao ser dividido

A nau se afasta
Afasta-se o horizonte
Encontros que acontecem no infinito

Assim a flor
Como quem viu um anjo
Se despediu da borboleta

Do alto do monte
Chora o alpinista
Não alcançou as estrelas

Que dizer das flores
Se o que nos marca
Sempre são os espinhos?

E no mar da vida
O pescador lança a rede
Nela seu sonhos se debatem

Silêncio
Canção que se faz pausa
Para que cantem os olhares

Eram mãos insensatas
Choraram em vermelho:
A rosa tinha espinhos

O poeta se cala
Poesia que vaga
Buscando a musa

Suave mansidão
A gaivota plana
Sobre um lençol azul

E o jovem cosmonauta
Percebe com pesar
A Terra era azul

Folhas ao chão
E o outono cinza
Desbota o verde olhar

Saudando a Lua
Luzem vaga-lumes
Que sonham ser estrelas

Tímida poesia
De olhos que evitam
O encontro do olhar

sexta-feira, 29 de abril de 2011

A INEXORABILIDADE DA SINFONIA CÓSMICA


Ói, olhe o céu, já não é o mesmo céu que você conheceu, não é mais
Vê, ói que céu, é um céu carregado e rajado, suspenso no ar

Vê, é o sinal, é o sinal das trombetas, dos anjos e dos guardiões
Ói, lá vem Deus, deslizando no céu entre brumas de mil megatons

Ói, olhe o mal, vem de braços e abraços com o bem num romance astral
(da canção “Trem das Sete”, de Raul Seixas)


            Vivo hoje uma serenidade quase estóica. É inescapável que quaisquer olhares humanos, do contemplar mais poeticamente ingênuo ao mais abalizadamente científico escrutínio dos meandros da natureza, enfim, todo o ato humano de ver, só nos tragam uma única certeza aos nossos corações e mentes ávidos por conhecimento: todos nós, entes do Cosmo, desde a mais ínfima partícula subatômica, até o mais complexo dos seres autoconscientes,  bailamos ritmados, em movimentos circulares de quase moto-perpétuo, tal qual um carrossel rodopiando frente aos olhos vidrados de alguma infantil divindade.
            Pouco podemos fazer para alterar esse quadro. A criação segue sua dança infinita, e talvez nosso debater constante, nossas tentativas patéticas de alterar o ritmo do balé cósmico não provoquem nada além de quase imperceptíveis cócegas nesse imenso corpo em movimento chamado Universo. Do alto de nossas arrogâcias pueris, nos degladiamos em debates infindos sobre os reveses que estamos causando no Cosmo, e em nossa tresloucada megalomania, acabamos por não nos darmos conta de uma verdade simples, tão simples quanto gritante: no máximo, temos o poder de arruinar nosso berço, nossa mãe Gaia (claro, e nós mesmos com ela, juntamente com todos os outros seres viventes de nosso planeta). Por mais vil e torpe que seja esse matricídio, certamente o restante dessa enorme família de corpos celestes flutuantes continuará vivo. Um pouco ressentidos, talvez, pela perda de um ente querido. Mas a recuperação, se pensarmos em termos das dimensões temporais do universo, será até rápida. Isso porque a mãe Terra é tão somente uma minúscula célula em um organismo de dimensões imensuráveis, uma pequena peça, girando no sistema de engrenagens de uma máquina inimaginavelmente grande, ao menos aos olhos estupefatos do sujeito chamado de observador ingênuo pela nossa tão cartesianamente metódica ciência. Pouca falta fará ao todo um repentino desaparecimento da Terra. Todavia nós, meras crianças cósmicas, ainda padecendo do típico egocentrismo infantil, incapazes de vermos a nós mesmos em outra situação que não entronizados no centro, no mais elevado patamar da criação, imaginamos que uma eventual ausência nossa silenciará a música das esferas, e com isso cessará toda a atividade do grande dançarino cósmico. Como se um bailarino interrompesse sua melhor apresentação por causa da perda de um simples fio de cabelo, ou de uma única lantejoula de suas vestes. Na verdade, apenas não estaremos lá para aplaudir o espetáculo. Mas mesmo assim, como se diz nas terras do imperialismo, do hamburger e do cristianismo fundamentalista, “the show must go on”. A vida segue seu curso.
            Alguns chegam ao desvairio de se proclamarem demiurgos, criaturas semi-divinas, com poderes para moldarem seus próprios universos, ao seu bel-prazer e em acordo com a quase sempre não assumida finitude e a sempre ontológica contradição de suas capacidades de produzir conhecimento. Como se até mesmo o psicodélico e multicolorido farfalhar das asas de um bando de borboletas monarcas, cruzando o planeta em sua migração anual, fosse responsabilidade deles. Desfortunamente ou não, caras crianças cósmicas, a maravilhosa Sinfonia Espaço-temporal, cujo primeiro ato teve seu início bilhões e bilhões de anos atrás, quando o Grande Maestro do Universo brandiu sua batuta criadora pela primeira vez, num gesto batizado pela ciência de “Big Bang”, não pode parar, e não o fará, enquanto a última nota não for entoada. E a sinfonia será executada até o fim, mesmo com uma possível ausência de um ou outro músico. Ou por acaso alguém supõe que o Sol aguarda pacientemente que hajam olhos para contemplar a beleza de uma simples aurora, para só então poder nascer?
            No fundo, no fundo, somos a todo tempo assolados pelo incômodo dessa constatação, talvez por ela fazer passar diante de nossos olhos incrédulos, escrita em letras de neon como num letreiro barato de beira de estrada, feio mais impossível de não ser notado, a certeza que acaba por deflagrar e exacerbar a nossa própria condição de finitude. Detestamos admitir, mas faremos muito menos falta ao Universo do que nosso pusilânime egocentrismo desejaria. Não nos iludamos, ó homens de pequena fé, mas tudo o mais na Sinfonia Cósmica, toda a dança do Universo, seguirá seu rumo mesmo sem nós. Desde o nascimento de uma estrela, passando pelo choque entre galáxias, pelos quadros de arte moderna pintados pelas mãos habilidosas da mãe Natureza, como no caso das auroras boreal e austral, ou das ancestrais nebulosas, até a eclosão de um ovo de mosquito, ou da cantoria tão animada quanto carente de afinação do pipoqueiro da esquina, tudo estará lá, no mesmo lugar. Não no mesmo lugar físico, mas no mesmo ponto da pauta musical cósmica, ou no mesmo movimento da coreografia do Universo. Apenas nós não mais estaremos presentes. Mas não faltam olhos extras para contemplar a magnitude da Criação. E mesmo que não houvesse olhar algum, nenhuma diferença faria. O Universo não precisa de olhos o contemplando para ser belo.
            Assim me sinto, entre o estóico e o Zen. Poucos prazeres suplantam o deleite de apreciar a Sinfonia Cósmica, a dança do Universo. Mais inebriante ainda é nos sabermos parte delas, ainda que pequeninas partes, tal grãos de areia perdidos em uma extensa praia. E nosso passamento não pode ser pensado acompanhado de uma vontade imensamente egoísta de querermos que o espetáculo seja interrompido por conta de nossa ausência. Se a manifestação das maravilhas da criação prescinde de olhos para apreciá-la, que dirá de um par de olhos específicos, e no caso sempre os nossos próprios? Aprender essa lição gera desapego, mas não um desapego apático, não um dar de ombros desinteressado para tudo o que a Criação nos proporciona. Isso seria como sair do caldeirão, para cair diretamente no fogo, se estamos tentando nos desvencilhar de um apego neurótico ao mundo material, este que só produz o desespero e o medo da morte, e nos torna monstros devoradores de bens de consumo (como se o prazer de consumir nos devolvesse a sensação absurda de sermos imortais). A participação no cantar e dançar do Cosmos precisa acontecer de forma intensa, porém serena. Uma canção, um quadro ou um copo de cerveja devem ser apreciados pelo que eles possuem de belo, de agradável, e não pela ilusão de que o mero ato de apreciar traz algo de concreto para nossas existências. Se assim o fizermos, ficaremos escravos de nosso anseio por prazer, e pior, iludindo-nos com a ideia de que o que nos prende é o objeto de nossa cobiça, e não nosso próprio movimento de cobiçar. Somos escravos de nosso próprio desejo, e os objetos de consumo são tão somente ferramentas que nos permitem operacionalizá-lo, apontá-lo para alguma direção específica, dar-lhe um sentido, um nome. Assim, o desejo se torna desejo de algo. Exorcisamos e expulsamos para as diversas manadas de porcos existentes em nossa volta a nossa própria Legião interna, nossos demônios mais íntimos, para assim podermos combatê-los em algo fora de nós mesmos.
            Viver, então, se torna a sublime e às vezes difícil arte de cantar e dançar ao som da Sinfonia Cósmica, ainda que saibamos que nossa participação nela não alcance sequer um compasso da Partitura Divina, e poderemos nos proclamar sábios quando alcançarmos uma compreensão plena de que a Sinofia é bela, mesmos naqueles trechos dos quais não participamos. O Canto Universal é belo, mesmo nos momentos em que nossas próprias vozes estão em silêncio, ou quando nossos ouvidos não estão lá para ouvir. E a Dança do Universo será sempre bela, mesmo quando nossos corpos já há muito estiverem imóveis.
           

sexta-feira, 15 de abril de 2011

HUMOR TAMBÉM É FILOSOFIA ou DIA DO BEIJO?


Vou jogar no lixo a dentadura, neném. Vou ficar banguelo numa boa
É que eu vou fundar mais um partido também!
Vou rasgar dinheiro, tocar fogo nele, só prá variar

(da canção “Só Pra Variar”, de Raul Seixas e Cláudio Roberto)


Sempre considerei o humor uma excelente arma de crítica. Não esse humor repetivivo, alienado e extremamente pornográfico tão em voga na atualidade, do tipo “Zorra Total”. Falo da linguagem humorística de nomes como Ziraldo, Millôr Fernandes, ou como os programas televisivos de humor da década de 80 do século passado.
Passando pelos textos publicados em meu blog, pude constatar uma coisa: muito embora o humor surja pontualmente, em um ou outro comentário meu, o blog ainda carece de um texto cuja linguagem principal seja o humor. Problema fácil e agradável de ser resolvido.
Essa semana vi ser martelado de forma exaustiva, no site de redes sociais Facebook, o fato do dia 13 de abril ter sido o dia do beijo. Dia do beijo, esse povo não tem mais o que inventar, não? Para mim, o ano tem 365 “dias do beijo” (e de quatro em quatro anos tem até 366!), e não apenas um. Pesquisando pela grande rede, descobri uma míriade de datas comemorativas no mínimo inusitadas: dia do leitor, dia do enfermo (imagina alguém parabenizando outra pessoa por estar doente no dia do enfermo), dia dos gatos, dia do contador de histórias, dia da compreensão mundial (!?!?), e por aí vai. E mais divertido (ou deprimente, conforme o seu estado de espírito ou seu nível de conscientização) é ver quase todo mundo aderindo, fazendo propaganda. Sendo assim, resolvi propor a criação de algumas datas comemorativas bizarras (direitos iguais: se outros podem fazê-lo, por que não eu?). Vamos à elas:

1) O dia mundial do peteleco no pé da orelha – imaginem pessoas ao longo do dia trocando petelecos no pé da orelha, como se fossem presentes, e agradecendo-se mutuamente. Ao chegar em casa, o marido poderia dizer à esposa: “querida, tive um ótimo dia: dei 127 petelecos nas orelhas dos outros, e levei mais uns 116” (o dia é do peteleco, não esqueçam. Vale tanto dá-los como recebê-los). A esposa então pensaria: “eu só levei um peteleco, do carteiro. Mas não foi no pé da orelha”. Olha eu escrevendo o mesmo tipo de piadinhas “zorratotalianas” que eu tanto critico!

2) O dia mundial do pum – esse seria sensacional. Todos os restaurantes, bares, churrascarias e afins serviriam feijoada, batata doce, repolho e ovos cozidos. O espetáculo seria imperdível. Poderíamos também realizar competições entre os peidões, tanto os profissionais quanto os amadores. Essas competições seriam divididas em categorias: o pum mais alto, o pum mais fedido (essa um primo meu ganharia fácil), o pum mais longo, exibição de puns polifônicos, puns sincronizados (para aumentar o espírito de equipe das pessoas).

3) O dia do Churrasquinho de Gato, do Angu do Gomes e do Picolé do China – quem vive ou conhece o Rio de Janeiro, certamente já teve contato com esses ícones de nossa gastronomia, essas pérolas do paladar. Quase onipresentes em nossas praças, esquinas e praias, esses incompreendidos pelos nossos órgãos governamentais de vigilância sanitária, por conta das condições de higiene em que são produzidos, bem como pela procedência obscura de suas matérias primas, merecem ser homenageados. Quando nossas autoridades perceberão que são exatamente os germes e bactérias presentes no processo que garantem o sabor inigualável dessas lendas de nossa cozinha? Tentem fazer igual em casa, e vocês perceberão que é impossível. Como diz o grande (em ambos os sentidos) Jô Soares: “o gosto do X-tudo da rua vem do germe da mão do cara que o faz”.

4) O dia internacional dos baixinhos, dos carecas, dos gordos e outros “pontos de referência” – esses desfavorecidos pela mãe natureza, sofredores condenados a atuarem como pontos de referência merecem. “Onde está seu irmão?”, um pergunta, “ali, ao lado do careca”, respondem. Ou então : “se ele alcançou aquela prateleira, então é fácil”. Ou ainda “quando você transa com sua mulher, ela goza duas vezes: uma no ato, e a outra quando você sai de cima”. Essas vítimas da sociedade mereciam até uma medalha, mas eu me contento com um dia dedicado à eles (na verdade a nós, porque eu me encaixo em um dos grupos). Nesse dia, não pagaríamos passagens de ônibus, nem entradas para o cinema, as mulheres seriam obrigadas a dar um beijo em pelo menos um representante dessas categorias, enfim, seria uma homenagem simples.

5) o dia internacional do Funk, do Pagode, do Axé e do Sertanejo Universitário DE QUALIDADE – esse já teria até data definida: seria todo dia 31 de fevereiro, mas apenas naqueles em que a temperatura média em Bangu – RJ fique abaixo dos 10 graus. Eu até propus que fizéssemos competições para saber quem seria capaz de encontrar o maior número de funks, pagodes, axés e sertanejos universitários de qualidade, mas todas as pessoas que entrevistei me disseram que seria muito mais fácil encontrar OVNIs, políticos honestos, enterros de anão e ex-gays.

6) o dia do heterossexual brasileiro – afinal, nós cinco merecemos uma data só nossa, vocês não concordam?

            Uma das muitas frustrações que trago na vida vem do fato de que, apesar de venerar o humor, e de tentar a todo tempo usá-lo como arma de críticas, jamais recebi uma única ameaça sequer de processo judicial. Xingamentos, difamações e outras maledicências já até encheram o saco, mas processos judiciais, que é bom, nem unzinho até agora! Sacanagem: todos os humoristas que admiro já foram processados por suas “vítimas”, e eu nunca fui. Que discriminação! Só porque eles são famosos? Na verdade, eu já até cheguei a sofrer uma ameaça de processo judicial por parte de um conhecido político da cidade onde eu morava, mas não foi por fazer humor. Foi apenas por dizer algumas verdades sobre ele. Algumas eram até engraçadas, mas a intenção não era fazer humor, eu juro pelo Paulo Maluf mortinho! Todavia, nesses tempos em que qualquer coisa que fuja um milímetro que seja de nosso “Catecismo do Politicamente Correto” pode terminar em confusão, me sinto na obrigação de lembrar que tudo o que eu disse nesse texto é apenas humor, apenas uma forma descontraída de criticar o fato de haver datas em homenagem a tudo, e das pessoas só pensarem e falarem disso nessas datas, como se fossem cãezinhos atendendo à voz de comando do adestrador. Inclusive, como já dito, eu mesmo faço parte de um dos tipos sobre os quais fiz humor (apelidos como “salva-vidas de aquário”, “c* de cobra”, “grande pequeno homem”, “gigante”, entre outros que acumulei ao longo da vida, sugerem que tipo seria esse).
            Enfim, espero apenas que me perdoem o meu senso de humor (menos os funkeiros).

quinta-feira, 7 de abril de 2011

PURO DESABAFO!!!

Voa, coração
Que ele não deve demorar
E tanta coisa a mais quero lhe oferecer
O brilho da paixão, pede a uma estrela pra emprestar
E traga junto a fé num novo amanhecer
Convida as luas cheia, minguante e crescente
E de onde se planta a paz,
Da paz quero a raiz

(da canção “Ao Que Vai Chegar”, de Toquinho e Mutinho)


            Mais uma vez eu tinha um texto filosófico pronto para postar no blog, e mais uma vez me senti na obrigação de adiar sua publicação para comentar um acontecimento lamentável ocorrido em nossa sociedade.
            Um ex-aluno de uma escola municipal do Rio de Janeiro passa com toda tranquilidade pelos portões de sua antiga escola, armado de dois revólveres e de farta munição. Uns afirmam que ele alegou ter ido lá buscar alguns documentos de seus tempos de aluno, outros que ele seria um palestrante. Nesse momento já notamos informações desencontradas, e breve as lendas se misturarão aos fatos verdadeiros, a estória irá povoar os jornais por algum tempo, talvez se torne filme, livro ou documentário no futuro, mas ao fim cairá no esquecimento, substituído pelos carnavais, Big-Brothers, novelas e Copas do Mundo da vida.
            Mas o fato é que esse ex-aluno entrou em uma sala de aula e começou a atirar contra os alunos, todos crianças, matando treze e ferindo outros vinte e tantos, alguns internados em estado grave, no momento em que escrevo essas linhas. Quase todos os tiros atingiram a cabeça ou o tórax das vítimas, dando a forte impressão de que o facínora sabia como manejar uma arma de fogo. Por diversas vezes, ele recarregou as armas. Por fim, com um tiro em sua própria cabeça, ele se matou.
            Uma carta foi escrita por ele, supostamente justificando o gesto insano. Segundo um oficial do Corpo de Bombeiros, o conteúdo da carta é extremamente confuso. Mais uma vez as lendas surgem por atacado: ele seria esquizofrênico, teria envolvimento com grupos fundamentalistas islâmicos, seria portador de HIV... e assim surge uma nova lenda urbana, e o que resta de fato é tão somente que diversas crianças tiveram suas vidas grotescamente ceifadas, e outras carregarão para o resto da vida um trauma que elas jamais irão esquecer.
            Não quero de modo algum fazer poesia sobre essa brutalidade, embora eu reconheça que as crianças vitimadas por essa insanidade mereçam ser homenageadas com poemas e canções de uma beleza que eu jamais poderia compor. E também não quero tentar nenhuma reflexão filosófica sobre o ocorrido, meu estômago revolvido de indignação e preplexidade não me permite. Quero apenas dizer que essas atrocidades são fruto de uma sociedade doente, uma sociedade que perdeu totalmente seus valores, se é que algum dia ela teve algum. Vou deixar você, meu amado leitor, com a revolta que deixei exposta através dos posts que fiz em um site de rede social, comentando um post de uma amiga:

            Uma sociedade que diz o quanto você vale pela quantidade de dinheiro que você tem, mesmo que seja dinheiro sujo, uma sociedade que diz que temos que competir sempre, sermos sempre os melhores, senão não somos nada na vida, ainda que para isso tenhamos que passar por cima dos outros..., uma sociedade que chama desonestidade de "esperteza", que chama compaixão de "fraqueza", uma sociedade que te diz que você é tão mais feliz quanto mais estiver imerso em bens de consumo..., uma sociedade que chama traficantes, políticos corruptos, bicheiros, entre outros, de "doutores", apenas por eles terem poder político e/ou econômico, enquanto dizem dos educadores: "você tem certeza de que quer ser apenas professor?" Como assim ser “apenas” professor? A mais bela de todas as profissões hoje é tratada assim? Uma sociedade em que as empresas se acham melhores porque lucram mais, e não porque seus produtos são bons, que se ufanam de acumular fortunas vendendo porcarias, essa sociedade não pode produzir nada melhor do que isso. Como diz uma canção de Gilberto Gil: "das feridas que a pobreza cria, sou o pus". Nossa sociedade está ferida, infeccionada. De vez em quando suas chagas se rompem, e o resultado é esse aí.
            Nós olhamos para quem comete essas atrocidades e pensamos: "esse cara é um monstro, é um doente", e muitas vezes não nos damos conta de que ele é a ponta de lança de toda uma sociedade que está doente. E não percebemos que nós também estamos um pouco doentes, porque nós fazemos parte dessa sociedade. É fácil demonizar um desvairado cuja atitude extrema vitimiza um monte de pessoas inocentes, mas cuja atitude é tão somente o clímax, o ponto alto, o espasmo, delírio ou vômito de uma sociedade que não suporta mais ser como é. Mas esse gesto insano só nos faz vermos isso com mais clareza, só faz deflagrar a situação de miséria, de falta de humanidade, em que vivemos. E infelizmente, quase sempre precisamos da existência de mártires para começarmos a refletir sobre isso. Nada trará as crianças vitimadas de volta. A perda é irreversível.

            Perdoem-me se por um momento estou abandonando minha linha de “filósofo da compaixão”, mas prefiro tentar evitar que minha revolta me faça sair por aí em desespero, à procura de culpados. Essas palavras não vieram de uma mente filosófica, do coração de um poeta, ou mesmo da alma de um crente em Deus. Elas vieram das entranhas de um ser humano que já não suporta mais ver tanta coisa acontecer diante dos olhos estupefatos do mundo. Peço a Deus para que qualquer acontecimento desse tipo continue provocando em mim mal-estares cada vez piores. Peço a Deus para que eu jamais me acostume com uma situação dessas. Se essas coisas pararem de me causar indignação, elas terão conseguido ceifar de mim a minha humanidade. Terão me transformado num monstro. Um monstro tão vil quanto este que, infelizmente, ganhou todas as manchetes dos jornais.


terça-feira, 29 de março de 2011

AURORA NAVEGANTE


O rio que aflui para beijar o mar
Aponta a rota ao solitário navegante
Traz o infinito que se vive num instante
Até que o tudo e o nada sejam só amar

Dias se passam, a lembrança faz-se viva
E aproxima o coração de quem cativa

Em cada brisa que a vela acaricia
E indo avante a nau se perde no poente
Sinal do dia que se finda de repente
Saem as estrelas, continua a poesia
Imaginando o que será do novo dia
Até que o mar se torne rio novamente

sexta-feira, 18 de março de 2011

A FORÇA DO AMOR DIANTE DA FRAGILIDADE DA VIDA: UMA REFLEXÃO.

Com que rosto ela virá?
Será que ela vai deixar eu acabar o que eu tenho que fazer?
Ou será que ela vai me pegar no meio do copo de uísque?
Na música que eu deixei para compor amanhã?
Será que ela vai esperar eu apagar o cigarro no cinzeiro?
Virá antes de eu encontrar a mulher, a mulher que me foi destinada,
E que está em algum lugar me esperando
Embora eu ainda não a conheça?

Vou te encontrar vestida de cetim,
Pois em qualquer lugar esperas só por mim
E no teu beijo provar o gosto estranho
Que eu quero e não desejo,mas tenho que encontrar
Vem, mas demore a chegar.
Eu te detesto e amo morte, morte, morte
Que talvez seja o segredo desta vida

Oh morte, tu que és tão forte,
Que matas o gato, o rato e o homem.
Vista-se com a tua mais bela roupa quando vieres me buscar

(da canção “Canto Para Minha Morte”, de Rail Seixas e Paulo Coelho)

            Um terremoto no fundo do Oceano Pacífico provoca uma tsunami... poucos segundos de uma revolta tectônica ceifam milhares de vidas em apenas mais uns poucos segundos... e tudo isso ocorreu no Japão, a mais bem sucedida das simbioses entre passado e futuro compartilhando o mesmo tempo presente, a melhor das alianças socio-históricas efetuadas entre uma cultura milenar fortemente arraigada e calorosamente cultuada, e uma racionalidade científica friamente organizada e metodicamente colocada em prática. Em nossas terras, onde a carência de uma visão de futuro, e a nossa já crônica irresponsabilidade histórica dão as ordens que regem nossa caminhada, sempre aos trancos e barrancos, rumo a um futuro inalcançável, estrategicamente camufladas em fantasias de carnaval, micaretas, discussões sobre futebol e “reality shows” de TV, a tragédia com certeza adquiriria proporções ainda mais grotescas.
            O planeta Terra como um todo foi abalado, nossa Mãe Gaia jamais será a mesma. O impacto do terremoto desviou o eixo da Terra em dez centímetros. Parece pouco. Os olhos humanos, nus ou vestidos de lentes telescópicas, sequer serão capazes de notar, mas até mesmo o céu, depois desses poucos segundos de horror, também já não é mais o mesmo, os astros celestes mudaram de lugar. Mas quais serão as possíveis consequências dessa alteração para a saúde de Gaia, num futuro próximo ou mesmo distante? Todas as possíveis respostas estão ainda ostentando títulos de meras especulações, e a verdade não passa de pontencialidade, de puro poder-vir-a-ser, subsistindo apenas na mente do Criador.
            Pequeno, é como me sinto. Extremamente pequeno e frágil. Um insignificante grão de poeira vagando nesse imenso deserto chamado Universo. Apesar de ser uma máquina extremamente complexa, cujo modo de funcionamento ainda não foi totalmente desvendado, mesmo milênios após o nascimento da ciência filha de Hipócrates, meu corpo não teria a menor chance de sobreviver, não fossem uma enorme gama de fatores favoráveis, reunidos em torno de Gaia, que a tornam um lar aconchegante, quase um berço, adornado pelas mais macias colchas, e balançando suavemente no espaço, embalado pela doce voz de um Deus-Pai que também é Deus-Mãe. Um acalanto: é como ouço cada som da natureza.
            Abandonem-me em qualquer outro ponto do Cosmos, e em pouquíssimos instantes a vida fugiria apavorada de meu corpo, sendo este imadiatamente destroçado pelas forças mais hostis do universo, tal qual a presa sendo dilacerada por um bando de mandíbulas e dentes de uma alcateia faminta. A não ser que meu corpo estivesse hermeticamente protegido por trajes espaciais e especiais. E estes nada mais são do que subterfúgios da ciência, criados com o propósito de nos permitir carregarmos conosco, por onde quer que passemos, as mesmas condições carinhosas de nossa mãe Gaia. Só assim podemos escrutinar a Criação para além dos limites de nosso Berço Cósmico.
            A Terra é o único lugar conhecido onde seres como nós podem sobreviver. Nossa mãe, nosso lar, nosso berço ou ninho. E o que fazer quando nosso próprio berço, ao invés de acalentar um sono tranquilo, nos sacode violentamente, como se quisesse simplesmente nos arremessar para fora? Como proceder quando nossa própria mãe deixa de ser nossa protetora, para se tornar, ainda que por um breve momento, a mais cruel das madrastas de contos de fada? Talvez essa seja a razão de nossa perplexidade diante de uma tragédia de tal magnitude. A quem iremos imputar culpa, nesse caso? O homem, pelos estragos que vêm causando em nosso planeta desde quando adquiriu capacidade de raciocínio abstrato? A natureza, por agir de forma cega, num mero encadeamento de causas e efeitos? Um iminente fim do mundo, apregoado desde a mais obscura antiguidade do homem, mas que não cansa de nos pregar peças, nunca comparecendo nas datas em que ele é esperado? Demônios, forças do mal tão em voga nos discursos de nossos mais variados fundamentalismos religiosos? Ou devemos mesmo culpar a Deus, como muitos acabam fazendo, para logo depois assumir o funesto ateísmo prático ou um agnosticismo despretensioso? Na verdade, fora dos limites do campo da fé, essa é uma indagação para a qual simplesmente não existe resposta.
            E desse modo nos damos conta de como a vida é frágil. Cada uma das pessoas vitimadas pelo furor tectônico, apenas alguns minutos antes, levavam suas vidas normais, seus afazeres, sonhos e dores comuns, cotidianos. O mesmo pode ser dito dos sobreviventes. Em uma fração de tempo, milhares de existências são modificadas de forma definitiva. Alguns por terem a trajetória bruscamente interrompida, outros por se verem de repente obrigados a remodelar toda a sua percepção do mundo, sem seus bens materiais, e pior, sem seus entes queridos. Bens podem ser repostos, pessoas não. São perdas absolutamente irreparáveis nesta existência. Não há alternativa, é aceitar isso ou aceitar isso. Pode parecer cruel, mas antes de tudo é real. Cada um de nós pode, sem o saber, estar vivenciando os últimos momentos da vida. Que postura, então, devemos adotar diante de tão terrível constatação?  O livro de Eclesiastes, do Velho Testamento da Bíblia, um dos textos mais sábios já escritos por mãos humanas, em seus dois últimos capítulos, nos dá uma esplendorosa lição sobre como devemos encarar a fragilidade da vida, e a virtual total falta de controle que temos sobre os processos naturais:

Lança o teu pão sobre as águas, porque depois de muitos dias o acharás. Reparte com sete, e ainda até com oito, porque não sabes que mal haverá sobre a terra. Estando as nuvens cheias, derramam a chuva sobre a terra, e caindo a árvore para o sul, ou para o norte, no lugar em que a árvore cair ali ficará. Quem observa o vento, nunca semeará, e o que olha para as nuvens nunca segará. Assim como tu não sabes qual o caminho do vento, nem como se formam os ossos no ventre da mulher grávida, assim também não sabes as obras de Deus, que faz todas as coisas. Pela manhã semeia a tua semente, e à tarde não retires a tua mão, porque tu não sabes qual prosperará, se esta, se aquela, ou se ambas serão igualmente boas. Certamente suave é a luz, e agradável é aos olhos ver o sol. Porém, se o homem viver muitos anos, e em todos eles se alegrar, também se deve lembrar dos dias das trevas, porque hão de ser muitos. Tudo quanto sucede é vaidade. Alegra-te, jovem, na tua mocidade, e recreie-se o teu coração nos dias da tua mocidade, e anda pelos caminhos do teu coração, e pela vista dos teus olhos; sabe, porém, que por todas estas coisas te trará Deus a juízo. Afasta, pois, a ira do teu coração, e remove da tua carne o mal, porque a adolescência e a juventude são vaidade. Lembra-te também do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais venhas a dizer: Não tenho neles contentamento; Antes que se escureçam o sol, e a luz, e a lua, e as estrelas, e tornem a vir as nuvens depois da chuva; No dia em que tremerem os guardas da casa, e se encurvarem os homens fortes, e cessarem os moedores, por já serem poucos, e se escurecerem os que olham pelas janelas; E as portas da rua se fecharem por causa do baixo ruído da moedura, e se levantar à voz das aves, e todas as filhas da música se abaterem. Como também quando temerem o que é alto, e houver espantos no caminho, e florescer a amendoeira, e o gafanhoto for um peso, e perecer o apetite; porque o homem se vai à sua casa eterna, e os pranteadores andarão rodeando pela praça; Antes que se rompa o cordão de prata, e se quebre o copo de ouro, e se despedace o cântaro junto à fonte, e se quebre a roda junto ao poço, E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu. Vaidade de vaidades, diz o pregador, tudo é vaidade.

Vaidade, aqui, surge de uma palavra hebraica cujo significado real é “sem utilidade prática”. Como se tudo no mundo, ao final das contas, não tivesse valor algum frente ao inevitável encontro com a morte. O sábio pregador nos brinda com algumas importantes admoestações. Os ciclos naturais de vida e de morte são inexoráveis, e seguem seu fluxo, a despeito de nossas ações ou nossos desejos. Não devemos, contudo, nos furtar de tomar atitudes frente ao aparente absurdo do existir, temos um papel a exercer na sinfonia cósmica. Possuímos o direito, e de certa forma o dever, de usufruir dos ciclos naturais, de seguir o curso dado pelo coração, timoneiro da nau que somos, ainda que à deriva no mar da vida. E novamente, nossas atitudes não importam: os ciclos naturais podem ser perenes, mas seus elementos componentes têm, todos eles, um fim inescapável, e isso nos inclui. Todos os resultados de nossas ações ao longo da vida permanecerão aqui, talvez como testemunhos, retratos do ser que realmente fomos, mas nós mesmos seremos devolvidos ao pó de onde viemos. A vida, nesse sentido, é apenas um empréstimo.
Mas o pregador nos adverte acerca de questões mais importantes. Por detrás dessa lógica quase estóica, sorri para nós, com o mais belo sorriso de pai-mãe, o Criador de todas as coisas. Deus nos revela, através de uma Criação bela, perfeita, ainda que por vezes hostil, o único valor que realmente não é “vaidade”, que tem não apenas utilidade, mas que permanece antes, durante e depois de todos os ciclos naturais do Cosmo: o Amor. Vivamos a vida que nos couber viver, cada um de nós tem uma cruz e uma rosa a carregar ao longo da existência. E o Amor é a principal força motriz a nos fazer suportar as mazelas existenciais. O autor da primeira espístola de João afirma claramente: “aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor”. Deus não apenas nos ama, simplesmente, Ele na verdade é “todo-amar”. A própria Criação é um ato de amor, nossa existência é um ato de amor. Deus nos criou para manisfestar seu Amor para com algo além de Si mesmo. Para Paulo, as três grandes virtudes dadas por Cristo seriam a fé, a esperança e o amor. Mas para ele, o amor era a mais importante das três virtudes, porque para ele, fé e esperança apontam para uma confiança nas promessas de Deus de instauração de seu Reino, mas uma confiança projetada no futuro, e não mais serão necessárias quando o adentrarmos. Mas o Amor, esse continuará sendo exercido entre os seres humanos e a divindade. O Amor existe desde sempre, uma vez que Deus é Amor. O Amor se exerce ontem, hoje e para sempre.
A tragédia no Japão nos mostrou como somos frágeis e pequeninos diante do universo. Vivamos, então, conscientes da fragilidade da vida. Passemos nosso existir usufruindo de um universo dado por Deus, sem contudo nos apegarmos a ele, posto ser nossa vida não apenas frágil, como também breve. Mas acima de tudo vivamos pela única coisa eterna que existe no mundo. Vivamos por amor. Porque por mais insignificantes que possamos ser, Aquele que é puro Amor nos ama.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Filhas do Pai, Mães do Filho, e Esposas do Espírito Santo


A Mulher tem na face dois brilhantes
Condutores fiéis do seu destino
Quem não ama o sorriso feminino
Desconhece a poesia de Cervantes
A bravura dos grandes navegantes
Enfrentando a procela em seu furor
Se não fosse a Mulher, mimosa flor
A História seria mentirosa
(da canção “Mulher Nova, Bonita e Carinhosa, Faz o Homem Gemer Sem Sentir Dor”, de Zé Ramalho)

            No último dia 08 de Março, o mundo celebrou o Dia Internacional da Mulher, um pouco ofuscado no Brasil pelo fato desse dia ter sido também a terça-feira de Carnaval. Como sabemos, o Carnaval tornou-se o maior agente de alienação do país, fazendo com que todos esqueçam completamente todas as questões importantes, todos os seus problemas e mazelas, para só pensar na folia. Alguns chegam a afirmar que no nosso país o ano só começa realmente após o Carnaval.
            O Dia Internacional da Mulher tem suas origens na Rússia do início do século XX, quando mulheres trabalhadoras realizaram uma série de manifestações por melhores condições de trabalho, e contra a entrada da Rússia na Primeira Guerra Mundial. Essas manifestações tiveram forte influência na Revolução Russa de 1917, servindo inclusive de propaganda para os governos socialistas do que seria a URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas). E apenas em 1975, a Organização das Nações Unidas (a ONU) reconheceu oficialmente a data como o Dia Internacional da Mulher.
            Mas qual a razão de ser de termos um dia dedicado a homenagear as mulheres, especialmente se não temos uma ocasião análoga para homenagear os homens? Simples, a razão é a mesma de termos um Dia do Orgulho Gay, um Dia do Trabalhador, um Dia Mundial de Luta Contra a AIDS, um Dia da Consciência Negra, e por aí vai. São todos grupos historicamente oprimidos e marginalizados pelos grupos majoritários (não necessariamente majoritários em termos de quantidade, mas sim por serem os grupos que detêm o poder). Termos datas comemorativas para todos esses grupos historicamente marginalizados e oprimidos é tanto um resgate histórico de suas dignidades e de suas especificidades existenciais, quanto uma forma dos grupos majoritários “pedirem perdão” pelas atrocidades cometidas ao longo da História, além de ser uma forma de reconhecer a importância dos menos favorecidos. No caso das mulheres, já se tornou lugar comum falarmos dos desafios enfrentados por elas em nossa sociedade contemporânea, como menores salários para as mesmas funções no mercado de trabalho, dupla jornada de trabalho, em casa e no emprego, assédios sexuais, empregadores exigindo cirurgias de esterilização para dar emprego às mulheres, entre outras atrocidades. E esse quadro funesto não foi pintado hoje, nem ontem. Ele tem suas raízes profundamente enterradas em nossa História.
            Ao longo das eras, a mulher sempre sofreu na carne as maiores humilhações já imaginadas pelo ser humano. Exemplos históricos não nos faltam: na Grécia antiga, uma mulher poderia ser condenada à morte, caso desse à luz apenas a meninas. O crime seria “não dar soldados para o estado” (não se sabia na época, mas o sexo dos bebês é determinado pelo cromossoma sexual do homem). Na antiga China, as mulheres de classe alta eram obrigadas a usar sapatos minúsculos, a fim de terem seus pés deformados ao ponto de dificultar o mero ato de caminhar. A justificativa: demonstrar que as mulheres viviam em famílias abastadas, nas quais elas não precisariam realizar nenhum tipo de trabalho. Mesmo porque os antigos chineses não consideravam a mulher como tendo qualquer utilidade além de procriar. Em algumas culturas islâmicas mais fundamentalistas, é comum vermos mulheres sendo submetidas a cirurgias de remoção do clitóris, para que elas não sintam nenhum prazer na relação sexual. E até hoje em dia, em tempos em que nos consideramos extremamente avançados e esclarecidos, ainda mantemos alguns resquícios desse passado de opressão. Vejamos o caso dos nomes: enquanto é solteira, uma mulher é chamada de “Senhorita X” (X sendo o sobrenome do pai). Após o casamento, ela se torna a “Senhora Y” (Y sendo o sobrenome do marido). Por trás desse aparentemente inocente costume, esconde-se uma triste e arcaica mentalidade. A mulher não pode ser dona de si mesma, não pode ter liberdade, sendo sempre propriedade de algum homem, seja ele seu pai ou seu marido. Quem é mais jovem pode não ter a menor ideia disso, e pode inclusive ficar chocado, mas no Brasil, há menos de 50 anos atrás, uma mulher casada não poderia sequer viajar sozinha sem uma autorização por escrito de seu marido.
            Até mesmo o Cristianismo foi um grande opressor histórico das mulheres, a despeito do fato de Jesus sempre nutrir o maior respeito por elas. Baseados no relato da criação do mundo do livro bíblico de Gênesis, os homens cristãos argumentaram que a mulher era a culpada pela expulsão do ser humano do paraíso. Sua posição subalterna seria então um justo castigo de Deus por ter desobedecido às ordens divinas, e por ter levado o “inocente” homem a fazer o mesmo. Alguns teólogos chegaram a afirmar que as mulheres não possuíam alma; depois admitiram a existência de uma alma feminina, porém inferior à alma do homem, e muito se discutiu sobre se essa alma feminina poderia ou não entrar no Reino dos Céus. E assim teve início todo o histórico de sofrimentos e humilhações infringidas pelo homem sobre as mulheres na cristandade. Séculos e séculos transcorreram até a igreja reconhecer a igualdade entre homens e mulheres enquanto imagem e semelhança de Deus. Mulheres chegaram a ser mortas, sob acusações de bruxaria, apenas por conhecerem ervas medicinais, por realizarem trabalhos considerados exclusividade masculina, ou por insistir em praticar a religião de seus antepassados. E mesmo no cristianismo atual, onde muito se avançou no sentido de um resgate histórico da dignidade da mulher, ainda a vemos ser relegada a posições secundárias nas comunidades cristãs. Muito se explora a força de trabalho das mulheres em nossas igrejas, mas sempre em posições inferiores. Os cargos “de comando”, nas igrejas da atualidade, continuam tão prerrogativas masculinas, quanto o eram na Idade Média. Pouquíssimas denominações cristãs de hoje, como a Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil e a Igreja Anglicana do Brasil, exemplos raros em nosso país, ordenam mulheres ao sacerdócio.
            Mas e Jesus? Qual era a postura do Mestre perante as mulheres? Jesus se comportou diante das mulheres da mesma forma como ele sempre se comportou diante de todos os párias sociais, de todos os grupos oprimidos e marginalizados de seu tempo. Ele demonstrou compaixão, respeito, admiração, e tentou a todo momento resgatar a dignidade da mulher, num contexto de um judaísmo que já havia há muito adotado uma postura opressora contra elas. Confrontando um Judaísmo cujos Rabinos (os líderes religiosos, os “padres” e “pastores” da época) orientavam os homens a incluir em suas orações a seguinte sentença: “bendito sejas Tu, Senhor, porque Tu não me fizeste mulher”, Jesus frequentemente colocava as mulheres em posições de destaque, tanto em seu ministério quanto em suas pregações e suas curas. Exemplos disso estão por todo lado no texto neotestamentário.
           Apenas para começar, Jesus incluía mulheres entre seus discípulos, provocando a ira das autoridades judaicas. Algumas mulheres, inclusive, por serem provenientes de famílias ricas, patrocinavam financeiramente o ministério do Mestre. Também em relação às leis sociais dos judeus, Jesus desafiou o status quo, sempre em favor das mulheres. Nos tempos de Jesus, era corriqueiro os homens fazerem uso do direito ao divórcio (direito exclusivamente masculino), para abandonarem suas esposas, muitas vezes pelos motivos mais fúteis. Essas mulheres, chamadas de “repudiadas” pela sociedade, até poderiam se casar novamente, mas como eram socialmente execradas, raramente conseguiam novo marido, ficando sem amparo para sobreviver (não havia nada parecido com aposentadorias ou pensões alimentícias naquele tempo). A única saída para não morrer de fome, não raras vezes, era a prostituição. Jesus quebra esse paradigma, dando o direito ao divórcio tanto para homens quanto para mulheres, com a diferença de que o Mestre reitera que o plano ideal de Deus não inclui divórcio, e que ele só deve acontecer em casos extremos, os de adultério.
            Falando em adultério, existia uma lei judaica que ordenava que a mulher flagrada em adultério deveria ser apedrejada até a morte. Cinicamente, nenhuma punição era prevista para os homens. Diante de uma mulher acusada exatamente de adultério, Jesus manda que qualquer um que não tivesse pecado algum atirasse a primeira pedra, que Ele mesmo tinha nas mãos estendidas para os presentes. Esse desafio fez cada um deles consultar suas próprias consciências, e assim ninguém se atreveu a atirar a pedra. Todos se afastaram silenciosamente. Essa passagem traz uma lição importante: o Mestre em momento algum nega o pecado da mulher, e sim chama a atenção para o perdão. Como nenhum de nós é isento de pecados, todos devemos ter compaixão por quem quer que peque, e a compaixão sempre exige o perdão. E após perdoar, Jesus apenas pede para que a mulher não repita seu ato. Mesmo porque da próxima vez Ele poderia não estar mais por perto para defendê-la.
            No episódio da crucificação, enquanto os doze principais discípulos batiam em retirada amedrontados, Pedro chegando mesmo a negar até que conhecia a Jesus, quando interpelado por autoridades romanas, as mulheres permaneciam fiéis aos pés da cruz, acompanhando todo o sofrimento do Mestre. Mais um exemplo da compaixão tão ensinada por Jesus. Do céu, certamente o Pai aplaudiu aquelas heroínas. Após a ressurreição, foi para as mulheres que Jesus apareceu pela primeira vez. E ao relatar o fato aos discípulos, elas ainda foram obrigadas a ouvir, sem reclamar, um Pedro (o mesmo que negou conhecer Jesus) chamá-las de fofoqueiras, tagarelas, e de duvidar da sanidade mental delas. Graças à compaixão que elas, melhor do que ninguém, aprenderam do Mestre, elas não reagiram a esse insulto.
            Mas o maior exemplo de valorização das mulheres está em Maria, mãe biológica de Jesus. Que me perdoem os meus irmãos católicos, mas para mim, Maria não possuía em si mesma nada de especial. Mas por intermédio dela, Deus prestou a mais belas das homenagens à mulher. Segundo o famoso autor protestante Phillip Yancey, Maria foi o primeiro ser humano a receber a Jesus como seu Salvador. Ao receber do Anjo Gabriel a notícia de que seria mãe do tão aguardado e tão incompreendido Messias, e que seria fecundada pelo poder do Espírito Santo, Maria diz simplesmente: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo tua palavra” (Lc 1:38), e imediatamente ela entoa um dos textos mais belos de toda a Bíblia, conhecido como o “Magnificat”, ou “O Cântico de Maria”. Maria acompanhou Jesus por toda sua vida, ainda que por vezes não fosse capaz de crer, como todos os outros membros da família do Mestre, e era uma das mulheres velando Jesus aos pés da cruz. No evangelho de João, Jesus pede ao suposto autor do evangelho que cuide de sua mãe. Nesse gesto simbólico, é como se Jesus pedisse a todos nós, homens, para que cuidemos e tratemos com carinho de toda mulher, como se cada uma delas fosse nossa própria mãe.
            Outra coisa me impressiona no caso de Maria. Como Jesus é o Verbo de Deus feito carne, como compartilha da substância da divindade, Ele poderia se tornar homem da forma como bem entendesse. Jesus poderia ter nascido de uma folha de alface, e ainda assim seria Deus feito homem, não mudaria nada (até ajudaria, porque seria um nascimento para lá de sobrenatural). Jesus, porém, preferiu nascer carne humana vindo da carne humana. Mas reparem bem: Ele abriu mão de nascer de um pai, mas não de uma mãe! Não quero discutir aqui os aspectos científicos da (im)possibilidade de Jesus ter nascido de uma virgem, nem o fato de que a encarnação de um deus a partir de uma virgem tem paralelos em outros contextos religiosos, como no caso do Mitraísmo. Quero aqui enfatizar que o Deus-homem nasceu de uma mulher para resgatar a dignidade perdida quando do evento do Gênesis. Se o homem culpa a mulher pela perda do paraíso, Deus a dignifica fazendo dela nascer o Salvador que nos dará o Céu. Deus havia feito essa promessa no próprio Gênesis, mas perece que até hoje nós ainda não entendemos bem isso.
            Em Maria, todo o propósito de Deus para as mulheres foi cumprido. Maria é a prova histórica e teológica de que só a mulher pode ser ao mesmo tempo “Filha do Pai, Mãe do Filho e Esposa do Espírito Santo”. Talvez os séculos de opressão, discriminação e humilhação que a mulher vem sofrendo nos contextos cristãos tenham como causa uma inveja que nós, homens, temos desse privilégio feminino.
            Parabéns a todas as mulheres. Não pela sua data festiva, mas por cada dia em que vocês se mostram verdadeiras heroínas da fé, mesmo em momentos em que não parece haver nada em que se acreditar. Todas vocês são filhas do Pai, mães do Filho e esposas do Espírito Santo. Vocês são a personificação do perdão e da compaixão que constituíram os dois grandes mandamentos de Cristo. Vocês são o coração de Deus irradiando Amor no mundo.