quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O ROCK ERROU? MÚSICA E ALIENAÇÃO


Quando nascemos fomos programados
A receber o que vocês
Nos empurraram com os enlatados
Dos U.S.A., de nove as seis.

Desde pequenos nós comemos lixo
Comercial e industrial
Mas agora chegou nossa vez
Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês

Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Somos o futuro da nação
Geração Coca-Cola

Depois de 20 anos na escola
Não é difícil aprender
Todas as manhas do seu jogo sujo
Não é assim que tem que ser

Vamos fazer nosso dever de casa
E aí então vocês vão ver
Suas crianças derrubando reis
Fazer comédia no cinema com as suas leis

(da canção “Geração Coca-cola”, de Renato Russo e Fê Lemos)
  
                Toda manifestação de cultura popular nasce como uma espécie de porta-voz do povo que lhe dá a luz, reproduzindo a realidade existencial na qual esse povo está imerso. Falando em termos de música (campo da arte do qual tenho mais conhecimento), vemos os mais diversos estilos musicais retratando o dia-a-dia das comunidades onde nascem e vivem os artistas. No Brasil, temos inúmeros exemplos. O baião e o sertanejo nascem cantando a vida no campo, a seca, a fome, a devoção religiosa (notadamente o Catolicismo Popular de matriz ibérica), e a saudade de quem precisou tentar uma vida melhor na cidade grande, às vezes tendo que deixar para trás a família, a mulher e os filhos. O samba retrata a realidade do homem marginalizado nas grandes cidades, o cotidiano das comunidades carentes, a identidade cultural do brasileiro afro-descendente, bem como a discriminação histórica por ele sofrida (assim como originalmente fazia o Blues nos Estados Unidos). Os estilos sulistas celebram as tradições gaúchas, por terem nascido de um povo que teve de deixar seus países de origem para tentar uma vida nova no Brasil, e trazem até hoje consigo o zelo por suas antigas tradições. E mesmo o rock, importado de terras estrangeiras, onde dá voz às importantes transformações sociais, culturais, políticas e até científicas do mundo a partir da segunda metade do século XX, exerce papel semelhante na cultura brasileira. Enfim, como qualquer forma de arte, a música é expressão do imaginário das pessoas dos lugares onde ela é produzida.
                Não há nada pior para uma manifestação artística, em termos da perda de seu valor cultural, do que essa manifestação deixar de ser cultura popular, para se tornar cultura de massa. Pode até ser maravilhoso em termos financeiros para alguns artistas, e principalmente para seus empresários, quando a arte por eles produzida suplanta os limites culturais onde ela é gestada, para atingir o grande público. Teoricamente essa massificação seria benéfica: expandir o modus vivendi de um povo para além de suas fronteiras seria fazer outros indivíduos, que foram formados em culturas diferentes, tomarem conhecimento da realidade sócio-cultural desse povo, e assim outras pessoas passariam a conhecer sua preciosidade cultural, bem como suas mazelas existenciais. Mas na prática não é assim. Sempre que uma determinada manifestação cultural é transformada em cultura de massa, para ser vendida ao grande público, ela passa por uma espécie de “pasteurização cultural”, processo no qual ela perde suas raízes, e se torna uma espécie de “expressão artística genérica universal”. Ela deixa de ter uma identidade cultural própria, e passa a repetir um tema comum já massificado, a fim de poder ser consumida por um público que está habituado a utilizar a arte apenas como mecanismo de entretenimento, e não como forma de conhecer outras expressões culturais.
                Qual seria essa temática genérica escolhida por nossos mecanismos de controle social para substituir as diversas expressões culturais locais? Simplesmente escolheram o amor, e nos convenceram de que o amor é um tema universal e eterno, enquanto as diferentes culturas são locais e temporárias. Assim, o baião e o sertanejo deixam de cantar o homem do campo, o samba deixa de cantar a realidade do negro carente e marginalizado nas grandes cidades, e o rock deixa de cantar as grandes transformações do mundo. Todos passam a falar apenas de amor (só a música sulista segue fiel às suas raízes, mas ela na verdade jamais chegou a ser cultura de massa: a gente só ouve música sulista se viajar até o sul). Mas na verdade, é um amor do tipo “Rede Globo”, também “pasteurizado”. Essa concepção não leva em consideração o fato de que mesmo o amor tem suas diferentes expressões. O amor enquanto sentimento pode até ser universal, mas as formas de se expressar e vivenciar esse sentimento variam no tempo e no espaço (isso por si só é tema para um estudo à parte).
                Existem outras razões para nossos mecanismos de poder quererem eliminar as especificidades das manifestações culturais transformadas em cultura de massa, em nome de um tema único. Uma manifestação artística que atinja o grande público sem perder suas raízes culturais faria com que muitas pessoas tomassem conhecimento de outras culturas. Isso também implicaria em muitas pessoas conhecendo os problemas de quem vive outras realidades culturais, sociais e econômicas, e talvez a conclusão lógica desse intercâmbio cultural fosse: “todo mundo tem problemas dessa natureza, não ocorre apenas comigo”. O resultado seria fatalmente uma cobrança maior por parte do povo, para que as autoridades tomem uma atitude. O povo, quanto mais unido, mais difícil é de ser vencido. Além disso, o próprio indivíduo formado na sociedade onde a manifestação cultural tornada cultura de massa foi gestada, de tanto ouvir a versão “pasteurizada” da arte de seu povo, acaba perdendo sua própria identidade cultural, para assumir a cultura de massa, notadamente alienada, que só sabe falar do “amor de Rede Globo”. Em ambos os casos, nossos mecanismos de poder conseguem ter controle mais efetivo sobre as massas.
                Vamos a alguns exemplos práticos. Começando pelo sertanejo, cito uma canção intitulada “Queimadas”, gravada pela dupla caipira formada pelos irmãos Pena Branca e Xavantinho, ambos já falecidos:

Este chão abençoado
Tão disposto a céu aberto
Esquecido pelo homem
Agora vira um deserto
São pedaços de riqueza
Devorada como a peste
Veio a seca e tomou conta
Do sertão do meu Nordeste

Seu dotô o quê que eu faço
Pra acabar com tanta mágoa
Entre nuvens de poeira
Tudo é seca e não tem água
Na cacimba só tem lama
E o açude virou pó
Nos olhos daquela gente
Corre pranto que faz dó

Minhas vaquinhas morreram
Meu jumento já se foi
Só resta lá na catinga
A carcaça do meu boi
É assim que a gente sente
Lastimando a sorte ingrata
Tenha dó da nossa gente
E ajude um cabeça chata


                Não há como ouvir essa canção sem refletir sobre o problema histórico da seca no nordeste, e é exatamente isso que nossos mecanismos de poder não querem que aconteça. Qual a solução? É simples, basta transformar a música sertaneja em algo parecido com isso:

Te dei o sol, te dei o mar
Pra ganhar seu coração.
Você é raio de saudade,
Meteoro da paixão,
Explosão de sentimentos
Que eu não pude acreditar.
Ah! Como é bom poder te amar!

Depois que eu te conheci fui mais feliz.
Você é exatamente o que eu sempre quis.
Ela se encaixa perfeitamente em mim.
O nosso quebra-cabeça teve fim.

Se for sonho não me acorde;
Eu preciso flutuar,
Pois só quem sonha
Consegue alcançar.

Tão veloz quanto a luz
Pelo universo eu viajei.
Vem! Me guia, me conduz,
Que pra sempre te amarei


                Coloca-se então um cantor jovem e bonitinho, que fará com que as meninas queiram alguém como ele, e com que os meninos queiram ser como ele, para conseguir as meninas. E assim todo mundo só pensa em namorar. Seca no Nordeste? Ninguém nem mais lembra que existe. Luan Santana não tem a menor noção disso, mas ele presta um desserviço à cultura brasileira.
                Agora vamos ao samba. Citarei o samba-enredo da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, do ano de 1988, intitulado “Cem Anos de Liberdade, Realidade e Ilusão”, alusivo ao centenário da assinatura da Lei Áurea:

O negro samba
Negro joga capoeira
Ele é o rei na verde e rosa da Mangueira

Será...
Que já raiou a liberdade
Ou se foi tudo ilusão
Será...
Que a lei áurea tão sonhada
Há tanto tempo assinada
Não foi o fim da escravidão
Hoje dentro da realidade
Onde está a liberdade
Onde está que ninguém viu
Moço
Não se esqueça que o negro também construiu
As riquezas do nosso brasil

Pergunte ao criador
Quem pintou esta aquarela
Livre do açoite da senzala
Preso na miséria da favela

Sonhei...
Que zumbi dos palmares voltou
A tristeza do negro acabou
Foi uma nova redenção

Senhor..
Eis a luta do bem contra o mal
Que tanto sangue derramou
Contra o preconceito racial


                Quanta consciência histórica teríamos, e que força ganhariam os movimentos sociais que lutam contra as mais diferentes formas de discriminação, se mais sambas assim fossem compostos? Mas as pessoas ficam mais facilmente manipuláveis se forem marteladas em seus ouvidos coisas como:

Abandonado, assim que eu me sinto longe de você,
Despreparado, meu coração dá pulo perto de você,
E quanto mais o tempo passa, mais aumenta essa vontade,
O que posso fazer?
Se quando beijo outra boca lembro sua voz tão rouca me pedindo pra fazer
Carinho gostoso, amor venenoso

To preocupado, será que não consigo mais te esquecer?
Desesperado, procuro uma forma de não te querer
Mas quando a gente se encontra, o amor sempre apronta
Não consigo conter
Por mais que eu diga que não quero
Toda noite te espero com vontade de fazer
Carinho gostoso, amor venenoso

Faz amor comigo, sem ter hora pra acabar
Mesmo que for só por essa noite
Eu não quero nem saber, quero amar você
Faz amor comigo até o dia clarear
To ligado, sei que vou sofrer
Mas eu não quero nem saber, quero amar você


                E olha que o Exaltasamba faz questão de cometer a heresia de se auto-intitular “Samba de Raiz”. Que Cartola, Noel Rosa, João Nogueira, entre outros que já nos deixaram, não ouçam isso!
                Mas o pior fica por conta do rock. Sempre subversivo por natureza, rebelde por definição, até o rock no Brasil foi transformado em um meloso desfile brega-romântico sem o menor senso estético, sem força nem poesia. Quero citar três trechos de canções do rock dos anos 80, para dar uma idéia de seu poder como agente de transformação. E serão apenas citações de canções pop-rock, de artistas que participaram e participam de programas de fim de ano da Rede Globo. Se eu citasse movimentos mais engajados, como o movimento Punk, a situação seria mais grave. Mas vamos às canções, começando com Cazuza:

Brasil!
Mostra tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil!
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim...

(trecho de “Brasil”)

                Agora passamos a Lobão:

A favela é a nova senzala, correntes da velha tribo
E a sala é a nova cela, prisioneiros nas grades do vídeo
E se o sol ainda nasce quadrado, a gente ainda paga por isso

Eu não quero mais nenhuma chance
Eu não quero mais revanche!
(trecho de “Revanche”)

                E por fim, Ultraje a Rigor. Essa canção foi tema de abertura de novela da Rede Globo. Muita gente a considerou pornográfica, sem perceber que na ironia das figuras de linguagem estava escondida uma seríssima crítica social:

Indecente
É você ter que ficar
Despido de cultura
Daí não tem jeito
Quando a coisa fica dura
Sem roupa, sem saúde
Sem casa, tudo é tão imoral
A barriga pelada
É que é a vergonha nacional

(trecho de “Pelado”)

                Apenas a título de informação: “barriga pelada” quer dizer FOME. Mas o que fizeram com o “bom e velho rock’n’roll”? Dói na alma constatar, mas fizeram isso:

E eu sei que assim talvez seja melhor
Mas não espero ver você voltar
E dizer que podemos recomeçar

E as noites que em claro eu passei
Só pra entender ou enxergar onde eu errei
E de nada valeram depois do fim

E hoje sei (eu sei)
E hoje sei, sei, sei
Não importa mais
Porque não vai, vai, vai
Voltar atrás
O que restou em mim

E não vou mudar e nem tentar entender
O que aconteceu ou vai acontecer
Nossa história teve um fim

E eu sei que assim talvez seja melhor
Mas não espero ver você voltar
E dizer que podemos recomeçar

E hoje estava pensando em você
Em tudo que eu queria te dizer
Mas não tive coragem de falar

E não vou mudar e nem tentar entender
O que aconteceu ou vai acontecer
Nossa história teve um fim


                E a banda Restart ainda imagina que as roupinhas coloridas são um ato de rebeldia? Além de apenas fazer com que eles fiquem parecendo calopsitas gigantes, artistas como David Bowie, Alice Cooper, e no Brasil os Secos e Molhados, já ostentavam aparências bizarras há décadas atrás, mas com uma diferença: a música tinha qualidade, e abordava diversos temas.
                Longe de mim ser contra canções de amor; eu mesmo já compus algumas. Sou contra um artista passar toda uma carreira discorrendo sobre o mesmo tema (não é, Zezé de Camargo?). Eles não sabem falar de outra coisa, não pensam em outra coisa. Será possível que existam pessoas tão limitadas assim? E essa pergunta vale tanto para os produtores quanto para os consumidores desse tipo de música. Até o Axé, ritmo alienado por definição, produto descartável para consumo rápido no Carnaval e nas micaretas, pode ir além. Moraes Moreira gravou uma canção intitulada “Cidadão”, que só não é considerada um Axé porque  foi gravada antes da criação desse rótulo. Eis a letra:

Na mão do poeta
O sol se levanta
E a lua se deita
Na côncava praça
Aponta o poente
O apronte o levante
Crescente da massa

Aos pés do poeta
A raça descansa
De olho na festa
E o céu abençoa
Essa fé tão profana
Oh! Minha gente baiana
Goza mesmo que doa

Abolição
No coração do poeta
Cabe a multidão
Quem sabe essa praça repleta

Navio negreiro já era
Agora quem manda é a galera
Nessa cidade nação
Cidadão
                Meu leitor pode estranhar o fato de eu não citar o funk carioca. Podem me processar, usando a lei que nos obriga a nos referirmos ao funk como cultura (grotesco, isso), mas o funk nunca representou a cultura dos meios onde ele é produzido. Ele já nasceu pasteurizado. O funk do Silva e o do “Eu só quero é ser feliz” são exemplos isolados, nunca foram a regra do movimento.
Concluindo, falemos de amor, mas falemos com poesia. E falemos também de outros assuntos. Afinal, o universo é mais complexo do que a namoradinha de fim de semana, e se não pensarmos em nossos problemas, eles certamente aumentarão de tamanho. Se não percebermos o quanto tentam nos alienar e manipular, seremos cada vez mais manipuláveis e alienados. Tentemos usar a nossa própria mente para fazer a diferença! Resgatemos a riqueza de nossas diferentes manifestações artísticas e culturais: o povo sofrido e esquecido agradece!

sábado, 29 de janeiro de 2011

CRÔNICAS DO COTIDIANO: UM DIA NO SHOPPING ou A CULTURA FAST-FOOD ou A ERA DO CONTROLE REMOTO


 Não me diga que me ama
Não me queira não me afague
Sentimento pegue e pague
Emoção compre em tablete
Mastigue como chiclete
Jogue fora na sarjeta (quem vai querer comprar banana?)
Compre um lote do futuro
Cheque para trinta dias
Nosso plano de seguro
Cobre a sua carência
Eu perdi o paraíso
Mas ganhei inteligência
Demência, felicidade,
Propriedade privada

(da canção “Piercing”, de Zeca Baleiro)
 

Uma coisa sou obrigado a admitir: mesmo indivíduos excêntricos inclinados à filosofia ou chatos de galocha críticos de tudo (e eu me enquadro em ambas as descrições) precisam, vez por outra, agir como “pessoas normais”, ou seja, fazer o que todo mundo faz. Movido por esse impulso, dias atrás visitei pela primeira vez o novo shopping center de minha cidade, inaugurado no início de dezembro passado. Esperei apenas passar toda aquela balbúrdia das festas de fim de ano, para não encarar a visão do inferno de um shopping center superlotado, e lá fui eu me fingir de terráqueo comum.
           O projeto do novo shopping center é interessante: da entrada principal até o prédio propriamente dito temos uma caminhada de mais de uma centena de metros, através de um corredor decorado como se fosse uma praça, ladeado por pôsteres enormes com fotos gigantes de pontos turísticos da cidade, cuja existência até então provavelmente era desconhecida para 99% da população do município, além das chopperias. Ótima a idéia de colocar as chopperias fora do prédio do shopping center, por duas razões: primeiro por permitir seu funcionamento mesmo após o fechamento das outras lojas, e segundo, como as chopperias ficam ao ar livre, sem ar condicionado, o calor se torna um convite para beber um pouco mais (e os donos agradecem por isso). No meio desse corredor de entrada, algumas pequenas cascatas artificiais abastecem um estreito e comprido lago artificial. Aproximei-me dele, a fim de descobrir se haviam peixes. Mas só encontrei lixo. Típico de lugares freqüentados por “pessoas normais”.
           Por dentro, o shopping center é apenas um shopping center, com todas as lojas encontradas em todos os shopping centers. Incrível como eles conseguem ser virtualmente idênticos. Depois de circular por todos os andares em busca de algo diferente, interessante (levei menos de 10 minutos fazendo isso), ficou a triste constatação: o novo shopping center celebrou de forma emblemática a morte da cultura em minha cidade. Não há uma livraria sequer. Se eu quiser comprar algum produto com a logomarca de meu time de futebol, tenho pelo menos umas quatro opções; querendo um livro, tenho que apelar para as lojas virtuais da internet, ou ir a outro shopping center. O melhor mesmo seria, infelizmente, me deslocar até outra cidade.
           A princípio, a idéia de um centro de compras (para os leitores menos atentos, é isso o que “shopping center” significa) parece maravilhosa. Muitas lojas, vendendo os mais variados produtos, além de cinemas, restaurantes e salões de jogos, tudo reunido em um único lugar. Prático, não? Mas já pararam para pensar no preço dessa praticidade toda? Nós simplesmente perdemos o hábito de andar pelas ruas, de passar pelas pessoas e dizer “bom dia”, “boa tarde”, de observar o lugar onde vivemos. Apenas algumas localidades do interior ainda mantêm esse costume, mas mesmo o interior está perdendo esse ar de humanidade, e está sendo contaminado por essa lógica individualista que assola as grandes cidades. Tudo bem, existe o aspecto da segurança: os shopping centers são bem mais seguros do que as ruas, não posso negar, e existe ainda a questão da já citada praticidade, por termos a quase certeza de encontrar tudo o que queremos. Mas será que vale o preço?
           Nossa pós-modernidade gerou uma espécie de “cultura fast-food”, onde tudo tem que ser rápido, e ao mesmo tempo exigir o menor esforço possível. Podemos também chamar nosso tempo de “era do controle remoto”. A lei do menor esforço, estudada cientificamente pelas correntes tayloristas da administração no início do século XX, transpõe as fronteiras da produção industrial, para invadir todos os aspectos de nossa vida. Tudo isso a despeito do fato das teorias da administração posteriores tecerem severas críticas ao Taylorismo, por se tratar de uma forma extremamente robotizante e robotizada de se conceber o ser humano. Taylor abordou o trabalho pensando apenas em seu aspecto prático, sem levar em conta outras dimensões da natureza humana. Uma das mais brilhantes críticas a esse modelo é o filme “Tempos Modernos”, de Charles Chaplin. Recomendo a todos. Filmado há mais de 70 anos, o filme consegue se manter irresistivelmente atual, e além de ser uma crítica muito inteligente, é também uma hilariante comédia.
Antigamente, nossas avós faziam bolos para o lanche. Compravam cada um dos ingredientes (quando não pegavam alguns deles no quintal, das hortas, pomares ou galinheiros), misturavam tudo segundo as mais variadas receitas, e depois colocavam para assar. Isso gerava nas crianças uma expectativa muito boa de se sentir, ainda mais quando elas tinham permissão para participar do processo. Hoje em dia, compra-se uma massa pronta, que após alguns minutos em um forno de microondas já pode ser servida. O que perdemos em relação ao tempo dos avós? Simplesmente o prazer de preparar um bolo. Ficamos tão focados em nossas metas, em nossos pontos de chegada, que sequer percebemos como o caminho até eles pode ser belo, ou pelo menos divertido. Até mesmo a atividade física entrou na dança, e hoje em dia, diversos canais de televisão especializados em televendas anunciam, como a técnica mais revolucionária para o emagrecimento e aquisição de condicionamento físico, um aparelho onde você se exercita sem precisar se mover. Como assim fazer exercícios sem sequer se mover? Até entendo a motivação dos gordinhos, mas por que razão um sujeito que não quer se movimentar vai querer condicionamento físico? E depois dizem que eu é que sou estranho...
           Caminhar pelas ruas, contemplando as árvores, os pássaros, passear pelas praças, cumprimentar as pessoas, brincar com as crianças, e eventualmente entrar em uma loja, tudo isso hoje é considerado pura perda de tempo. O negócio é correr para um shopping center, comprar o que se precisa, e voltar para casa o mais rápido possível, para usufruir o bem de consumo adquirido. Novamente o consumo orientando nossas ações (e me perdoem se estou me tornando repetitivo). Outra vez a máquina capitalista nos levando para o inferno do individualismo extremo. E infelizmente, o argumento da segurança acaba sendo convincente, realmente a violência é um problema real, não podemos fingir que ela não existe.  E no fim, a triste constatação: o capitalismo não precisa de significado, e muito menos de beleza. Ele só precisa ser prático.
Imaginemos um ET hippie que por acidente venha parar em nossa mãe Gaia. Mas por infelicidade ele caiu justamente no trecho mais urbano de uma grande cidade. Observando a Terra, protegido por seu “aparelho de invisibilidade” (suponho que extraterrestres avançadíssimos possuam geringonças desse tipo), nosso mochileiro das galáxias não tardará em constatar algumas coisas: os humanos vivem dentro de grandes caixas, de diferentes tamanhos, cada uma delas abrigando diferentes quantidades de indivíduos (depois ele vai aprender que as tais caixas se chamam casas e edifícios). Para sair dali, os primitivos terráqueos se enfiam em outra caixa, essa bem menorzinha. Mas ao contrário das primeiras, essas pequenas caixas se movem, sempre rapidamente, de um lugar para outro (quem deduzir que eu estou falando de automóveis, parabéns: é isso mesmo). Nosso ET imediatamente liga os foguetes propulsores de sua mochila espacial (claro que eles têm isso; eles têm até aparelhos que os tornam invisíveis!), e parte no encalço dos humanos que se deslocam dentro da caixinha ambulante, querendo descobrir o que farão. E o que fazem os humanos quando a caixinha que os transporta pára? Entram imediatamente em outra caixa grande imóvel, que pode ser o local de trabalho, uma academia de ginástica, a escola, uma universidade, teatro, ou até mesmo um shopping center. Talvez o ET conclua que os seres humanos são totalmente sensíveis à luz solar, e morreriam tostados, caso saíssem de suas caixas. De volta ao seu planeta, o ET diria que sequer conseguiu ver direito como era a aparência dos terráqueos. Eles não se expunham à luz solar, sempre se deslocando de caixa em caixa. Andando pelas ruas, nosso amigo intergalático viu apenas cães, mendigos, drogados, prostitutas e outros párias sociais. Mas o nível de degradação deles era tão grande, que nosso amigo de outro mundo não conseguiu diferenciá-los. Os humanos “de verdade” só se deslocam de caixa em caixa, concluiu.
Essa cultura do “tudo muito rápido e sem esforço” fez de vítima até mesmo a língua portuguesa. A Última Flor do Lácio Inculta e Bela, tão bem cantada pelo poeta Olavo Bilac, vem sofrendo inúmeras violências, e está se transformando gradativamente em outro idioma. O famoso “miguxês”, por exemplo, como foi batizada a nova forma de expressão escrita popularizada entre os jovens pela internet por conta dos sites de relacionamento e dos programas de mensagem instantânea, é sim, admito, uma nova forma de linguagem, com suas especificidades e sua legitimidade em termos de manifestação cultural. Mas reparem como o tal do miguxês é todo baseado em reduzir o tamanho das palavras, normalmente suprimindo vogais (“você” vira “vc”, “também” vira “tb”, e assim por diante), substituindo letras por outras com mesmo som (sempre que uma palavra tem “ch”, digita-se um “x”, por exemplo), ou usando outros caracteres para substituir as letras (a palavra “demais” vira “d+”, e assim sucessivamente). Resumindo, é uma linguagem que tem como regra básica digitar menos caracteres, falar mais com menos esforço. Perde-se totalmente o sentido estético do idioma, toda a sua beleza gramatical, em nome do mero pragmatismo de comunicar. Eficiente, mas muito feio. Poesia então, já nem se sabe mais o que é isso, e aí estão todas as bandas coloridas, funkeiros e cantores sertanejos universitários, que não me deixam mentir. O miguxês seria então a versão “fast-food” da língua portuguesa, específica para uso online, bem ao gosto do inglês norteamericano (os mestres da filosofia fast-food). Apenas a título de informação, os norteamericanos caminham a passos largos para transformar o idioma de Shakespeare num mero agrupamento de monossílabos.
Nossa cultura faz com que até os nomes próprios sejam reduzidos, simplificados, normalmente à sua primeira sílaba. Assim, Fernanda vira “Fê”, Eduardo vira “Edu”, Maria Lúcia vira “Malu”, José Carlos vira “Zeca”, Patrícia vira “Paty”, e por aí vai. “Que cara chato! Isso é apenas uma forma carinhosa de tratar as pessoas!”, meu leitor pode pensar nesse momento. Mas é o carinho “fast-food”: sob a roupagem de um tratamento carinhoso, você não precisa mais se preocupar em lembrar se sua amiga se chama Rosa, Rosângela, Rosana, Rosane, Rosiane, Roberta, Ronalda, Ronilda, Rosilda, Rosaura, Rosália, Roxana, Rossana etc. Basta chamá-la de “Rô”. Não é menos informação para dar conta?
Não sei se vocês notaram que o tempo todo eu usei a expressão “shopping center”. Alguém estranhou? Pois minha intenção foi justamente demonstrar esse aspecto simplificador da cultura pós-moderna. Afinal, todo mundo hoje diz apenas “shopping”. Mais prático? Pode ser. Melhor? Tenho minhas dúvidas. Quando reduzimos algo ao seu aspecto prático, pragmático, quando simplificamos nossa realidade em nome da velocidade e do menor esforço, corremos o risco de não percebermos toda a diversidade, complexidade e beleza desse algo, e acabamos ficando com uma experiência e uma percepção muito limitadas de nossa realidade. E porque nesse caso suprimimos o “center”, e não o “shopping”? Elementar, meu caro leitor: CENTER significa “centro”, e SHOPPING significa “compras”, ou o “ato de comprar”. Qual desses dois significados o nosso modo de produção capitalista e a nossa lógica consumista preferem que seja mantido?
Decididamente, essas não são reflexões comuns de se encontrar em um shopping center, embora não deixem de ser pertinentes. Por fim, acabei ligando para dois amigos, e terminamos a noite sentados à mesa de uma das chopperias do shopping (sem o “center”, afinal, também sou filho de Deus, posso querer economizar caracteres, especialmente em nome de não agravar ainda mais as minhas tendinites). Lá, bebemos chopp, e discutimos a morte da cultura de nossa cidade, e sobre como poderíamos proceder para ajudar a ressuscitá-la. Estávamos no melhor lugar para discutir esses assuntos? Talvez sim. O grande símbolo de uma sociedade que prima pela velocidade, pela facilidade e pela praticidade, em detrimento do conteúdo, dos significados mais profundos, belos e amplos, o ícone de um mundo que olha uma viagem e só vê a chegada ao destino, perdendo toda a beleza do caminho, pode ser o melhor lugar para se falar em conteúdo, e em beleza. Pelo menos os objetos de nossas críticas estão lá, ao vivo e a cores. E lembremos sempre o conselho que provavelmente seria dado por nosso amigo ET: vamos ao shopping, isso em si mesmo não tem absolutamente nada demais. Mas jamais nos esqueçamos: ainda existe um mundo lá fora.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

ANJOS EM FORMA DE GENTE!


Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria


Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida....

(da canção “Maria, Maria”, de Milton Nascimento e Fernando Brandt)


          Eu já havia afirmado em textos anteriores: o ser humano é capaz de chegar, desde aos mais sublimes atos de bondade, até às mais vis das atrocidades, tudo ao mesmo tempo. E ao longo desses dias de tragédia na Região Serrana do Estado do Rio de Janeiro, temos visto tanto gestos de solidariedade e compaixão quanto as piores demonstrações de perversidade por parte das pessoas. Anjos e demônios convivendo lado a lado, dentro desse universo complexo chamado ser humano.
           Não quero falar muito acerca do lado da maldade, registrando apenas a existência de algumas pessoas sem coração, que resolvem se aproveitar até mesmo de tragédias dessa magnitude, para tentar ganhar algum dinheiro fácil. Monstros em forma de gente, como comerciantes se aproveitando dos acontecimentos para super-faturar alguns de seus produtos. Antes de começarem a chegar os donativos, houve quem vendesse uma garrafa de água mineral de um litro por VINTE REAIS, e um botijão de gás de cozinha chegou a custar NOVENTA REAIS. Além disso, a polícia prendeu outros monstros humanos, que tentavam desviar caminhões lotados de donativos, para vender em outras localidades. Nessas horas, muita gente defende a pena de morte para casos específicos dessa natureza, e eu, que sou radicalmente contra a Pena Capital, acabo ficando sem ter o que dizer.
           Mas graças a Deus, nosso mundo não é habitado apenas por demônios, e eu também posso usar essas linhas para falar sobre pessoas, cujo exemplo de superação os tornaram verdadeiros anjos, luzes que devem deixar marcas profundas em nossos corações. Eu, pelo menos, jamais serei o mesmo, depois de ter conhecido essas lições de vida. Vou citar três exemplos, apenas três, mas que valem por mil maus exemplos que nos possam ser dados.
           Vamos começar por Laerte Calil de Freitas, prefeito do pequeno município de Areal, situado a 40km de Petrópolis. Ao perceber um aumento anormal no nível das águas dos rios que cortam a cidade, ele imediatamente entrou em contato com um município vizinho, situado rio acima. Confirmando as inundações, que fatalmente também atingiriam Areal, Laerte acionou um carro de som de uma rádio comunitária local, para avisar os moradores ribeirinhos, pedindo para eles saírem de suas casas o mais rapidamente possível. Resultado: a enchente atingiu o município, diversas casas foram destruídas, levadas pela correnteza, inclusive a casa do motorista do carro de som, mas ninguém morreu; as perdas foram apenas materiais.
           O segundo anjo se chama Leandro Machado. Pedreiro de profissão, e conhecedor como poucos do interior do município de Nova Friburgo, onde mora, seus conhecimentos foram decisivos para indicar as melhores formas de acesso a diversas áreas isoladas. Todavia, enquanto trabalhava como voluntário, chegou-lhe a notícia trágica: sua própria casa havia sido atingida, e sua esposa e seu filho, de apenas dois anos de idade, estavam mortos. Atordoado com a notícia, Leandro tomou uma decisão que surpreendeu até mesmo os bombeiros, acostumados a lidar com tragédias: como não tinha mais como ajudar a própria família, Leandro resolveu continuar ajudando os outros, e seguiu em frente com seu serviço voluntário. Desrespeito para com seus familiares mortos? Com toda certeza, sua esposa e seu filho discordariam, e aposto que de lá do céu ambos estão aplaudindo, orgulhosos de seu herói.
           Por fim, preciso falar de um anjo de nome Wellington da Silva Guimarães. Depois de deixar seu filho Nicolas, de apenas sete meses de idade, para passar o dia com a avó materna, Wellington vai à casa de sua sogra, juntamente com sua esposa, para buscar a criança e voltar para casa. Contudo, por conta da chuva já pesada, o casal decide dormir na casa da sogra de Wellington. Durante a madrugada, um deslizamento de barreira atingiu a casa. A esposa e a sogra de Wellington sucumbem ao incidente. Wellington, preso pela lama em um espaço de aproximadamente um metro quadrado, vê seu filho com vida. Heroicamente, ele consegue tirar as roupinhas molhadas de Nicolas, e faz uso de uma fronha, e de seu próprio corpo, para manter o bebê aquecido. Por instinto ou por iluminação divina, Wellington usa sua própria língua para tentar alimentar seu filho com sua saliva. O gesto também acaba servindo para fazer Nicolas dormir quase o tempo todo, como se a língua de seu pai fosse o seio de sua mãe. Após um período de treze a quinze horas nessa situação, segundo as pessoas que fizeram o resgate, pai e filho são finalmente retirados da lama com vida. Enquanto resgatavam a criança, as pessoas em volta ouviam Wellington falar a seu filho: “tenha coragem, porque você ainda tem um mundo para enfrentar lá fora”. Talvez o “mundo lá fora” seja realmente mais cruel do que o mar de lama no qual eles estavam presos. Dias depois, em entrevista a uma rádio, Wellington se diz confortado com a perda de sua mulher e sua sogra, e está certo de que Deus tem um propósito para tudo o que acontece. Diz ainda que Deus o abençoou de tal forma, a ponto dele perder a noção do tempo enquanto estava naquele inferno. Wellington só soube quanto tempo ficou lá por intermédio de seus resgatantes. Jesus diria dele a mesma coisa que disse do centurião romano que pediu a cura de seu servo: “Ouvindo isto, admirou-se Jesus e disse aos que o seguiam: Em verdade vos afirmo que nem mesmo em Israel achei fé como esta” (Mt 8:10).
           Lamento pelos monstros que surgiram ao longo desses acontecimentos, tentando tirar proveito da desgraça alheia. Só posso rogar a Deus que lhes toque os corações, e os façam ver as atrocidades que eles vinham cometendo. Mas por outro lado, os anjos citados acima me enchem o peito de esperança, e me trazem algum conforto em meio a essa tragédia toda, além de me fazer refletir sobre a pequenez de meus próprios problemas, que muitas vezes eu acabo super-valorizando. Perto disso tudo eles não são nada. Diante do que assolou aquela gente, minhas dores são apenas cócegas. E talvez as suas também o sejam, amado leitor.
           Parabéns, Laerte. Parabéns Leandro. Parabéns Wellington. Vocês são meus heróis. Vocês me fazem não perder as esperanças. Graças a vocês, e a exemplos como os seus, eu ainda consigo acreditar em um mundo melhor! Que Deus continue a dar a vocês essa Força, essa Fé e essa Paz. E que Deus levante da terra cada vez mais heróis como vocês. O mundo precisa disso, e agradece.
 

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

MAIS UMA DESGRAÇA ANUNCIADA! ATE QUANDO, MEU DEUS?


          Não é nossa culpa, nascemos já com a bênção
          Mas isso não é desculpa pela má distribuição
          Com tanta riqueza por aí onde é que está
          Cadê sua fração?
          Até quando esperar a plebe se ajoelhar
          Esperando a ajuda de Deus?
          (da canção "Até Quando Esperar?", gravada pelo grupo Plebe Rude)
   
          Eu já tinha um texto pronto para publicar essa semana no blog, mas as últimas tragédias ocorridas na Região Serrana do Rio de Janeiro, onde as chuvas provocaram enchentes e deslizamentos de terra, causando a morte de centenas de pessoas, me obrigaram a adiar a publicação desse texto. Não há como não falar desses últimos acontecimentos. E infelizmente, no momento em que escrevo essas linhas, outras tragédias ainda podem acontecer, há previsão de mais chuvas, e o número de mortos deve aumentar, à medida em que os corpos sejam localizados.
Centenas de pessoas tiveram suas vidas tragicamente interrompidas, e os sobreviventes precisarão reconstruir suas existências, com quase nenhuma ferramenta para isso. Além de terem de recuperar todos os bens perdidos, essas pessoas terão que aprender a viver sem seus entes queridos, tirados deles da forma mais abrupta possível. E ao contrário dos bens materiais, as pessoas não podem ser substituídas, só a lembrança vai sobreviver, nos corações daqueles que ficaram. Uma mulher concedeu uma entrevista para um canal de televisão: ela tinha perdido nada menos do que QUINZE pessoas de sua família. Nem eu, nem você, meu leitor, nem ninguém tem como descrever essa dor: só quem sente isso na pele pode ter uma noção de como é.
Tenho uma afeição especial por um dos municípios atingidos. Além de ter parentes nascidos lá, Nova Friburgo é para mim um dos melhores lugares para se viver, e um dos melhores destinos para quem deseja viajar. A natureza mostra lá toda sua grandiosidade: cachoeiras, trilhas, picos, fauna e flora exuberantes, e um clima extremamente agradável, o típico friozinho de serra. Fundada por colonos suíços, mas com a presença de diversas outras etnias (alemães, espanhóis, húngaros, japoneses, entre outros), Nova Friburgo celebra suas tradições múltiplas, com festivais culturais e gastronômicos que se estendem ao longo de quase todo o ano. Amo a cidade como se fosse uma segunda casa minha. Inclusive um de meus sonhos é, após me aposentar, terminar meus dias morando lá. E me dói ver as fotos da tragédia. Como disse um amigo meu, cuja família ainda reside no município: “é como se a cidade que tanto amamos simplesmente tivesse deixado de existir!” Os outros municípios atingidos têm também seus encantos próprios.
No meio da consternação pelas perdas, especialmente as perdas humanas, em meio ao sentimento de compaixão e solidariedade pelos sobreviventes, cujos vazios deixados por seus entes queridos mortos jamais será preenchido, não pode deixar de surgir uma revolta. Não contra as chuvas, a natureza, ou contra o divino, mas contra os verdadeiros responsáveis por acontecimentos desse tipo. Nossos governantes, ocupados com seus interesses pessoais, cuja natureza nem me atrevo a supor, assistiram de braços cruzados, ao longo dos anos, a ocupação e o crescimento desordenado das suas cidades. Sem perspectivas de emprego no interior, muitas pessoas buscam moradia perto dos centros das cidades, e não raras vezes, não têm outra opção senão ocupar áreas de risco. Esse é um processo que vem se arrastando ao longo da história, e de modo algum começou ontem. Quase sempre as pessoas sabem dos riscos, mas não há alternativa: muitas vezes é isso ou passar fome. Não podemos culpá-las.
Em 2010, duas tragédias semelhantes aconteceram no Estado do Rio de Janeiro, uma delas no município de Angra dos Reis, e outra que atingiu a Capital e a Região Metropolitana do estado. Pelos mesmos motivos. E já naquela época, muito se falou na possibilidade de uma tragédia parecida na Região Serrana, cujas características geográficas, somadas à ocupação e crescimento desordenados, ocorridos com a total conivência histórica de seus governantes, a tornam particularmente vulnerável. Desgraça anunciada, desgraça concretizada. O número oficial de mortos na Região Serrana já supera a soma dos dois acontecimentos de 2010, e esse número, por razões já citadas acima, infelizmente ainda deve aumentar.
O espetáculo circense que vemos na imprensa é ao mesmo tempo deprimente e revoltante. Autoridades políticas das esferas estadual e federal culpam as autoridades municipais pelas tragédias mais do que anunciadas, por serem elas as que estão mais próximas, e com isso terem mais condições de fiscalizar as ocupações. As autoridades municipais, por seu turno, acusam as autoridades de esferas superiores de descaso total, de jamais darem o devido apoio e atenção a um problema que o poder público municipal não tem como resolver sozinho. Eles sequer percebem que muitos dos que estão em uma das esferas hoje, estavam em outras tempos atrás,  e só estão preocupados em fazer da desgraça do povo, já tão sofrido por si só, uma passarela onde podem desfilar suas politicagens. Construir ou fortalecer seus nomes à custa de mortes, de dores, de perdas materiais, de gente que não tinha nada e mesmo assim perdeu todo o pouco que tinha, é tudo o que os facínoras que nos governam querem. Vampiros, embriagando-se do sangue de inocentes.
Do outro lado da moeda, e felizmente sempre temos outro lado da moeda, vemos a população, o cidadão de bem, solidarizar-se com os sobreviventes. E mais uma vez uma enxurrada de donativos vai ser encaminhada aos necessitados, vencendo os obstáculos de pessoas inescrupulosas que desviam para si as melhores doações, e das autoridades que tentam se promover, como se as doações tivessem partido deles próprios. Nojento, mas real.
A compaixão é um dos valores que mais defendo em meus textos. Quando ocorreram as tragédias na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, vi amigos meus serem vitimados, e a todo momento eu pensava que poderia ter sido comigo. Foram apenas contingências do destino que me fizeram morar em uma área onde não existe esse risco. Da mesma forma me sinto com relação aos moradores da Região Serrana. Por isso peço: todos aqueles que puderem ajudar, façam, e façam segundo suas próprias possibilidades. Afinal, como dizia o grande e saudosíssimo Herbert de Souza, o Betinho, “quem tem fome tem pressa”. Mas essa não é a única razão para sermos solidários. Não podemos esquecer de que não se trata somente de satisfazer necessidades materiais. Os donativos vindos de pessoas comuns faz as vítimas perceberem que alguém se importa com eles. E isso é com certeza uma das poucas coisas que podem lhes trazer algum tipo de consolo.
Ajudemos com todas as nossas forças. Façamos tudo o que estiver ao nosso alcance. Isso é compaixão. Isso é cristão. Isso vem de Deus. Mas não fiquemos nisso! Vamos cobrar de nossas autoridades por políticas públicas que tragam a solução definitiva para esse e para outros problemas que nos afligem. Lembremos: amanhã as vítimas podem ser nós mesmos, ou as pessoas que amamos. Isso também é compaixão, além de ser justiça. Isso também é cristão. Isso também vem de Deus.


quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

POR QUE OS BONS SOFREM?



A vida é uma escola onde o viver é o livro e o tempo o professor
Onde alguns são sábios porém até hoje ninguém se formou
A única certeza é que o dia do acerto já está pra vir
Prepare a sua alma pois na hora certa você vai ouvir
(da canção "O Profeta", de Lúcio Barbosa, gravada por Zé Geraldo)
 
           Jó é um dos mais fascinantes livros de todo o Velho Testamento. O texto se inicia com Deus recebendo seus “filhos” (os anjos) em sua presença, numa espécie de “audiência pública celestial”. Entre os filhos de Deus, surge a famosa figura de Satanás. Já no início da leitura nos deparamos com uma questão intrigante: se Satanás era realmente a personificação do mal, o grande inimigo de Deus, como postulam o judaísmo tardio e quase todo o cristianismo histórico, por que razão ele não foi expulso dali? Muito contrariamente a isso, Satanás é simplesmente tratado como mais um dos filhos de Deus!
Na verdade, Satanás só começou a se tornar a figura que conhecemos hoje quando Israel esteve sob dominação persa. O Zoroastrismo, religião predominante na Pérsia àquela época, concebia o universo como o palco de uma luta cósmica entre dois deuses igualmente poderosos, um bom e outro mal. A influência do Zoroastrismo no Judaísmo fez com que Satanás fosse “promovido” a esse posto de “divindade do mal”.
           Em Jó, Satanás é apenas o agente da dúvida. Após ser indagado acerca dos lugares por onde ele tinha passado, Satanás responde a Deus que retornava de uma peregrinação pela Terra, onde teve a oportunidade de observar os seres humanos. Deus imediatamente lhe pergunta se ele havia visto Jó, um homem bom e religioso, reto e justo aos olhos divinos. Satanás introduz um questionamento: não seria Jó temente a Deus apenas por ser rico e abençoado? Caso fosse tirado de Jó tudo o que ele possuísse, ele não amaldiçoaria a Deus? Aposta feita, Deus permite a Satanás voltar à Terra e destruir tudo o que Jó possuísse. Única condição: o próprio Jó nada deveria sofrer.
           Se realmente fosse o grande inimigo de Deus, Satanás provavelmente desobedeceria sua ordem. Mas curiosamente, ele age exatamente como Deus ordena, tirando de Jó seus bens, seu gado, seus servos, matando seus filhos, e deixando viva apenas sua mulher. E esta só faz aconselhá-lo a amaldiçoar seu Deus e morrer em seguida. Mas Jó permanece fiel, dizendo que tudo o que ele possuía fora dado por Deus, e pelo mesmo Deus poderia ser tomado de volta, a qualquer momento.
Retornando à “assembléia celestial”, Satanás retruca a Deus que Jó não O amaldiçoou porque seu corpo não fora tocado. Novamente o anjo da dúvida recebe permissão para afligir a Jó, imputando-lhe toda sorte de doenças. E novamente uma condição é imposta: Jó deveria permanecer vivo. E mais uma vez as ordens de Deus são cumpridas à risca.
           A partir daí, o livro passa a ser escrito em versos, um longo poema, onde Jó recebe a visita de três amigos. Os quatro, então, iniciam uma reflexão filosófica profunda, onde os três amigos sugeriam que Jó teria cometido algum tipo de pecado, pelo qual ele estava sendo barbaramente castigado. Não haveria outra explicação para tanta desgraça. Jó, por sua vez, alegava não ter feito absolutamente nada de errado, e limitava-se a lamentar sua triste situação. O fim do livro volta ao texto em prosa, fazendo Deus em pessoa surgir diante dos quatro debatedores. Deus então afirma sua soberania sobre todas as criaturas. Não havia a menor importância se Jó havia cometido algum pecado ou não: o que estava acontecendo servia apenas para mostrar que a vontade divina sempre prevaleceria, a despeito de qualquer outra coisa. E isso não deveria ser questionado. Após essa lição, Deus restitui a Jó todos os bens perdidos, em quantidades ainda maiores das anteriores.
           Evidentemente, temos aqui não um registro histórico, mas sim um mito. Quase toda boa teologia admite que Jó provavelmente nunca existiu. Mas o mito não é exatamente uma mentira. Ele é uma narrativa, muitas vezes fantástica, que encerra um ou mais ensinamentos, esses sim reais. Mas o livro de Jó não trata de Deus permitindo que um servo seu seja castigado injustamente, apenas para atender a meros caprichos de um ser malvado que é pura dúvida. Jó é um profundo tratado filosófico, cujo tema central é: por que os justos frequentemente sofrem, enquanto muitas vezes os perversos prosperam?
Nós vivemos em um mundo físico, cujas leis são implacáveis. A natureza parece agir de forma cega: se duas pessoas se atirarem do alto de um prédio, as duas provavelmente morrerão espatifadas no chão. Não importa se uma delas é uma pessoa boa, e a outra um criminoso: a natureza vai agir da mesma forma com ambos. “Dura Lex, sed Lex”, assim funciona o universo. As leis da Física não mudam por causa do caráter dos seres humanos. Mas a despeito disso nós, seres humanos, temos a inclinação para explicar os fatos dando-lhes sempre um sentido no tempo e no espaço, um significado e uma finalidade. Não vemos a existência como um mero encadeamento de causa e efeito; procuramos sim, sentido, significado, explicações metafísicas para tudo o que acontece. Jung dá a essa tendência o nome de “Princípio Teleológico”, em contraposição ao Princípio Causal das ciências naturais.
Com esse raciocínio, passamos a entender a vida de forma meritocrática. Se algo de bom nos acontece, isso de deve ao fato de termos agido bem. Por outro lado, se nos ocorre o mal, só pode ser porque agimos mal. A ideia de um Deus justo parece exigir uma conclusão desse tipo. A maior parte das religiões “evolucionistas” (budismo, hinduísmo, kardecismo etc) propõe esse ensinamento de forma clara, e atribuem tudo o que acontece a um indivíduo aos atos por ele praticados em algum momento passado, seja nesta vida, seja em alguma vida anterior. E assim como ocorre com as leis da Física, essa lei espiritual, conhecida como “Lei do Karma”, age de forma cega, com uma importante diferença: enquanto a Física age da mesma forma para cada situação, o Karma age da mesma forma para cada intenção. Em suma, segundo essa forma de pensar, o Karma afirma que todo bem será recompensado com outro bem, e todo mal com outro mal. Mas essa é uma forma equivocada de se entender o sentido original de Karma. A Lei do Karma nada mais é do que uma forma espiritual, religiosa e não científica da lei de causa e efeito da Física. Essa lei simplesmente diz que “a cada ação corresponde uma reação de mesma intensidade, mesma direção e sentido contrário”. Ou seja, todo ato praticado produz uma consequência, mas o valor dessa consequência independe da intenção do ato. A lógica da meritocracia surge aqui para dar conta de alegrias e sofrimentos aparentemente sem razão, diante da ideia de um Deus (ou muitos deuses) justos.
Nem o cristianismo escapou dessa lógica, e com que frequência ouvimos as pessoas citarem palavras de Jesus ou de Paulo, nas quais eles afirmam que Deus recompensará ou punirá o homem segundo seus atos! Quantas vezes não dizemos, diante de uma situação adversa, algo como “mas o que é que eu fiz para merecer isso?”. O cristão acaba agindo como os três amigos de Jó: se lhe acontece algo bom, ele se ufana de ter agido bem, e estar sendo premiado por Deus; se lhe ocorre a desgraça, ele vasculha seus próprios atos em busca de pecados, já que só é capaz de entender as tribulações como punição por erros cometidos. Mas Jesus pensava assim? No evangelho de João, temos uma passagem emblemática dessa questão: “E passando Jesus, viu um homem cego de nascença. Perguntaram-lhe os seus discípulos: Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego? Respondeu Jesus: Nem ele pecou nem seus pais; mas foi para que nele se manifestem as obras de Deus” (Jo 9:1-3). Jesus foi claro: o cego nasceu assim para um dia ser curado, e com isso manifestar o amor de Deus. Toda cura promovida por Jesus é um anúncio de um Reino de Deus onde não haverá mais doença. Para o Mestre, o sofrimento não é punição, seu valor é pedagógico. Deus permite o sofrimento, mesmo aquele sem explicação e aparentemente injusto, para que aprendamos com ele. Quando Jesus diz que haverá uma compensação para todos os atos humanos, ele não está se referindo a punições ou prêmios “pagos” nessa vida, mas sim em um restabelecimento da justiça divina no cosmo, quando a criação será restaurada. “Porque o Filho do Homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus anjos, e, então, retribuirá a cada um conforme as suas obras” (Mt 16:27). Em outras palavras, a justa retribuição de Deus não é para essa vida. E mesmo essa retribuição não inclui punições, uma vez que em Cristo Deus se reconciliou e levou o perdão a toda a humanidade.
Essa é a intenção de Jó: mostrar que nem sempre a justiça divina é clara, que os bons podem sofrer, e os maus podem ser abençoados. Durante dois capítulos do livro (38 e 39), Deus afirma sua soberania e sua infinitude, contrapondo-os à finitude humana. Jó reconhece isso, sabe que Deus pode fazer o que quiser. Mas e Jesus? O Mestre afirma que Deus “faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos” (Mt 5:45). As leis da natureza, criadas por Deus, são as mesmas para todos.
Como já dito em linhas anteriores, Jesus busca sempre o caráter pedagógico do sofrimento “Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” (Jo 16:33). Deus não nos pune por nossos pecados, afinal, todo pecado humano recebe seu perdão em Jesus Cristo. Como agir então diante do sofrimento? Tentemos parar de procurar em nosso passado pecados que possam justificar a dor, e olhemos nosso sofrimento como um professor, um agente de transformação divinamente constituído, cuja intenção é nos fazer tomar uma nova atitude, assumir uma outra postura diante da vida. Procuremos enxergar o que Deus quer nos ensinar através do sofrimento. Como fazer isso? Somente através da Fé. Fé com “F” maiúsculo, não uma mera adesão a um sistema de crenças. Fé como entrega, descrita na Epístola aos Romanos como a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem (Rm 11:1), e definida por Kierkegaard como o mecanismo através do qual somos capazes de superar os limites de nossa racionalidade. Quando perguntado sobre que dom gostaria de receber, o Rei Salomão pede a Deus sabedoria. Jesus, por sua vez, nos sugeriria pedir Fé. A sabedoria no máximo nos faz aceitarmos com serenidade os limites de nossa racionalidade, enquanto a Fé nos permite superá-los. E Fé só existe na sabedoria. Sem sabedoria, Fé é fanatismo. Mas sem Fé, sabedoria é apenas inteligência. E a pura inteligência, no fim das contas, é maldição. E se pensarmos bem, a Fé de verdade sempre produz a sabedoria, mas o oposto nem sempre acontece.
Só seremos verdadeiramente sábios quando, por intermédio da Fé, pudermos ver, em cada sofrimento, a presença de Deus, sempre nos ensinando sobre seu Amor e seu Perdão, e nos dando a chance de realizarmos uma ação realmente transformadora em nossas vidas. Nada de punição: a justiça cega é apenas vingança, e o Pai não é vingativo. Deus nos ama, mesmo quando nos faz sofrer.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

ANO NOVO, VELHOS RITUAIS


          Mais um ano chega ao fim, e se não houver nenhuma hecatombe inesperada, logo no dia seguinte um novo ano se iniciará. Assim como no Natal, as pessoas irão se reunir, trocar votos de felicidade, e desejar um futuro melhor do que foi a vida até aqui. Mas ao contrário do Natal, onde as festas têm características mais familiares, e as pessoas ficam mais compenetradas, alguns chegando inclusive às lágrimas (muitos ficam tristes no Natal), o Ano-novo ganha sempre contornos mais carnavalescos. Aliás, o brasileiro tem a estranha mania de transformar tudo em Carnaval, e o Natal é uma das poucas festas que escapa.
           O Réveillon também é o momento das esperanças no futuro, e para garantir um futuro melhor vale tudo, até mesmo as mais bizarras superstições. Roupas brancas clamam por paz, roupas íntimas ganham a cor que simboliza a principal necessidade de quem a usa (dourado para um ano melhor financeiramente, vermelho para quem busca um novo amor, e assim por diante). Mas o que seria dito de pessoas na beira de uma praia, todos vestidos de branco (menos as cuecas, calcinhas e sutiãs, que inclusive ficam visíveis debaixo das roupas brancas, tornadas quase transparentes pela água, pelo suor e pelas bebidas, pois há quem inclusive tome banho de champanhe ou cerveja), comendo uvas verdes, enquanto dão pequenos saltos sobre as ondas, apoiados em um pé só, coincidentemente, sempre o direito? Em qualquer outra época do ano, a conclusão seria de que se trata de lunáticos, ou de adeptos de alguma religião exótica (o que para muitos é a mesma coisa). Mas no Ano-novo pode. Até os artistas fazem!
           Impressionante a necessidade do ser humano de repetir sempre os mesmos rituais. Parece coisa de homens primitivos, de mentalidades animistas, pré-científicas. Mas mesmo nossa “avançada” mentalidade cartesiana é dada a fazer as coisas sempre do mesmo jeito como foi feito da primeira vez que deu certo. Agimos inconscientemente como se fazer diferente fosse provocar a ira dos deuses, e com isso trazer castigo, desgraça. Quando um rito é praticado por uma única pessoa, ele é considerado patológico, é batizado com o simpático nome de “TOC” (Transtorno Obsessivo-compulsivo, último grito da moda, especialmente depois que Roberto Carlos admitiu sofrer dele), e um tratamento médico e psicológico é sugerido. Mas quando um determinado rito é praticado por todos, ou pela maioria, ele passa a ostentar o status de “tradição”, “cultura”, e não apenas sua prática é incentivada, como não praticá-lo é que passa a ser condenável. “Todo mundo faz isso, por que só você não o faz? Por que você sempre quer ser diferente?” A velha questão da aceitação no grupo social, cujo preço muitas vezes é agir como todo mundo, mesmo que às custas de contrariarmos nossas convicções pessoais.
           Nossos ritos sociais, em geral, não se restringem ao aspecto espacial, mas também possuem uma dimensão temporal. Como já anteriormente citado, comer uvas vestido de branco enquanto se pula sobre um pé só sobre as ondas da praia só é considerado normal na noite de Ano-novo. Em qualquer outra data seria um ato insano, dá até internação. As tradições (rituais socialmente consagrados) têm não apenas lugares e formas, mas também tempos “corretos” para serem praticadas. Além de rituais, o ser humano também é inclinado a criar ciclos, como se a vida fosse uma dança, com seus ritmos peculiares. Nos inclinamos a fazer sempre as mesmas coisas nos mesmos tempos. Tudo bem, meu leitor pode retrucar que toda a natureza opera por ciclos, e todos os seres vivos moldam seus comportamentos conforme esses ciclos. Mas no caso de animais e plantas isso não é uma escolha; eles são geneticamente programados para responder a esses ciclos naturais. O ser humano, por sua vez, mesmo podendo escolher, prefere se manter preso aos seus rituais e ciclos. E mais grave: os rituais e ciclos humanos, em larga medida, já não são mais orientados por aspectos naturais, ou mesmo pelo arcabouço cultural acumulado ao longo da história. Hoje muito de nossos ritos e ciclos têm como mola-mestra o mover da máquina capitalista, e orientam, na verdade, o ritmo de nosso consumo.
           Reparem como ao longo do ano, não há um momento sequer em que a mídia não esteja propagandeando nenhuma data festiva, datas essas que foram transformadas de tradições a meros ensejos para o consumismo. Tudo convenientemente preparado para nos fazer adquirir bens, gastar dinheiro. Começamos o ano sendo estimulados a gastar com o Carnaval, e imediatamente após ele, a mídia já começa a divulgar a Páscoa. Logo depois vêm o Dia das Mães, o Dia dos Namorados, as Festas Juninas, o Dia dos Pais, o Dia das Crianças, o Dia de Finados (até o dia dos mortos vira objeto de consumo, e os floristas agradecem), e por fim, o Natal. E cada uma destas datas tem seu significado original meticulosamente distorcido, para nos fazer gastar dinheiro.
           Desejo que 2011 seja o ano em que começaremos a fazer diferente. Que o encerramento de mais esse ciclo, que inclusive não marca só um novo ano, uma vez que 2011 também inicia uma nova década, nos leve a uma reflexão que nos faça ressignificar nossos velhos rituais e ciclos. Que possamos parar para simplesmente contemplar a beleza de nossas tradições, tradições essas que muitas vezes já não conseguimos mais enxergar, ocupados como estamos, ora consumindo, ora trabalhando para termos mais dinheiro para consumir ainda mais. Que possamos olhar os velhos ritos com novos olhos, e assim iniciarmos uma ação verdadeiramente transformadora em nossas vidas. Mas principalmente que possamos olhar nos olhos uns dos outros e dizer de coração: FELIZ ANO-NOVO!

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Jesus x Noel ou O Verdadeiro Sentido do Natal



E então é natal (e a guerra terminou...)
Para o fraco e para o forte (...se você quiser)
Para o rico e para o pobre
O mundo é tão errado
(Tradução de trecho da canção “Happy Xmas, War is Over” – Feliz Natal, a Guerra Acabou, de John Lennon)

           Papai Noel tem uma origem curiosa. Um jovem chamado Nicolau (São Nicolau, para os católicos e ortodoxos orientais), nasceu no século 3, em uma cidade grega chamada Patras. Quando seus pais morreram, ele doou toda sua fortuna para os pobres, e ingressou na vida religiosa. Diz a lenda que, na cidade de Nicolau, viviam três irmãs que não podiam se casar, em virtude de serem muito pobres, e não terem como pagar o dote à família do noivo. O pai delas decidiu então vendê-las como escravas, conforme elas fossem atingindo a idade adulta. Quando a primeira filha estava para ser vendida, Nicolau, ainda jovem, soube do fato, e jogou um saco cheio de moedas de ouro pela chaminé da casa, que caiu dentro de uma meia colocada ali para secar. O mesmo ocorreu com a segunda e a terceira filha, e assim todas puderam se casar. Apenas após a terceira filha ter recebido o “presente”, o pai soube quem era o misterioso benfeitor, e passou a pregar sobre sua bondade. Como Nicolau se transformou depois na figura psicodélica de um velho de longas barbas brancas, vestindo um pijama e um gorro vermelhos, morando no Pólo Norte, e guiando um trenó voador puxado por renas, não faço idéia.
Todo Natal é a mesma coisa. A cada esquina um trabalhador desempregado faz bico vestido de Papai Noel, símbolo-mor do consumismo exacerbado tão em voga em nossa sociedade, lembrando-nos de nosso compromisso de comprar, de adquirir bens de consumo sempre e cada vez mais. A mídia nos assola com intensa propaganda, sempre com as palavras de ordem do consumismo. Uma grande loja de departamentos, inclusive, há vários anos vem poluindo nossos ouvidos com a mesma musiquinha irritante. Os Shopping Centers ficam abarrotados de pessoas, surgem placas e cartazes anunciando promoções por todos os lados, e gente, mas muita gente mesmo, comprando e comprando e comprando e comprando. Os produtos da moda disputados à tapa, filas intermináveis para ir ao caixa, e dívidas ainda mais intermináveis por conta das prestações assumidas por se comprar tantas coisas.
 Papai Noel e o Natal se tornaram talvez os maiores ícones do capitalismo. Tanto é que muitos pensam que a cor da roupa do Papai Noel foi escolhida por ser a mesma da logomarca de uma grande multinacional produtora de refrigerantes. Irônico: um jovem que, ao ficar órfão, doou todo seu dinheiro aos pobres, ingressou na vida monástica, e ficou famoso por doar moedas de ouro para moças pobres poderem se casar, se torna o grande símbolo do consumismo desenfreado, do capitalismo selvagem.
            Todo Natal é a mesma coisa. Pessoas se reencontram, trocam presentes e perdões, fazem votos para um Ano-novo que, invariavelmente, imaginam e desejam será melhor do que o ano em curso. E fazem isso com a família, no trabalho, na escola, no clube, enfim, em todos os lugares que freqüentam. Alguns choram, ficam tristes, depressivos, e quase nunca são capazes de dizer o motivo. Comemos aquelas frutas secas importadas do hemisfério norte, altamente gordurosas, a despeito de estarmos em pleno calor de um verão tropical. À meia-noite, abraços e votos de felicidade são distribuídos, ao som de uma imensa orquestra de fogos de artifício. O Natal parece ter poderes mágicos, uma estranha aura, capaz de transformar nossos individualismos, e convertê-los aos mais sublimes altruísmos. Parece ter o poder de nos fazer parar de olhar apenas para nossos próprios umbigos, para voltarmos nossas atenções para nossos semelhantes menos favorecidos. As pessoas fazem e participam de campanhas, fazem doações e mutirões. Alimentos, roupas e presentes são distribuídos em orfanatos, asilos, hospitais, e até nas ruas, para os párias excluídos de nossa máquina social. Por que só no Natal? 




Mas alguém ainda se lembra do que realmente é o Natal? Historicamente, a Igreja Cristã determinou o dia 25 de dezembro como sendo a data de nascimento de Jesus Cristo. Não pretendo aqui entrar no mérito de que muito provavelmente Jesus não nasceu nesse dia; trata-se na verdade da data de nascimento do deus Mitra, divindade muito popular nos tempos de Jesus, cuja vida apresenta uma série de paralelos com a vida de Jesus, e cujo culto apresenta muitas similaridades com o Cristianismo que surgiria logo depois. Para todos os efeitos, consideremos o dia 25 de dezembro como a data simbólica do nascimento de Cristo.
Quase ninguém mais se lembra disso. Para muita gente, o Natal só continua associado ao nascimento de Jesus na hora de montar o presépio, e nem todos montam presépios, especialmente os protestantes, avessos a toda e qualquer forma de arte sacra, à exceção da musica. Magnífica invenção de São Francisco de Assis, o presépio é o resto, a sobra atávica do verdadeiro sentido do Natal. Jesus Cristo, expressão máxima do Amor de Deus para com a humanidade, acaba de nascer. O menino Jesus é o grande símbolo da esperança, do renascimento. Naquele recém-nascido, deitado em uma manjedoura, na companhia de seus pais, dos magos, de alguns animais, pastores e anjos, o milagre é atualizado: Deus está se fazendo homem, para anunciar à humanidade que Ele mesmo, Deus, está propondo sua reconciliação com a raça humana, está anunciando o fim de todo sofrimento, isso que a Igreja chama hoje de “salvação”.
 O sentimento de perdão que fica na moda nos tempos natalinos é fruto do perdão de Deus, anunciado no nascimento de Cristo. Mas Jesus não estabelece tempos, datas ou prazos para o perdão. Segundo o Mestre, não deve haver sequer limites quantitativos para o perdão: ele deve ocorrer sempre que houver a ofensa. Naquele tempo, Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” Jesus Respondeu: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (MT 18: 21-22). Isso não significa que devemos perdoar apenas 490 vezes. Jesus apenas parte do uso do número sete feito por Pedro (sete era o número da perfeição, de um ciclo completo, na concepção judaica), para dar um número grande o suficiente para que se perca a conta no meio do caminho. O perdão deve ser infinito. Até porque talvez a ofensa também o seja.
Infelizmente, nem mesmo a figura de Jesus de Nazaré escapou do processo de “papainoelização”, que também vitimou nosso querido São Nicolau. Os movimentos cristãos pentecostais e carismáticos iniciados no século XX, cujas origens remontam às teologias do Destino Manifesto e da Prosperidade, que abençoaram e sacralizaram a fortuna, o acúmulo de capital, alteraram radicalmente a imagem de Cristo. Jesus deixa de ser a expressão máxima do amor de Deus, que se fez homem para proclamar o perdão, para se transformar em uma espécie de “Papai Noel”, ou então numa modalidade qualquer de “gênio da lâmpada”, sempre alerta para satisfazer nossos caprichos mais mesquinhos, sempre disposto a nos suprir de toda sorte de bens materiais, a nos trazer riquezas, especialmente as mais supérfluas. Talvez aí esteja a explicação para esse ar de magia que toma conta de todos no Natal: tomados pelo remorso de sempre buscarmos nossas fortunas pessoais sem nos preocuparmos com o sofrimento de nosso próximo, uma vez por ano, pelo menos, nós conseguimos nos despir de nossos egoísmos, em nome do bem-estar de nosso semelhante. E o que provoca essa transformação tão radical? Para mim, esse é o grande milagre do Natal: a simples contemplação do Menino Jesus, o mero olhar para a doçura daqueles olhinhos infantis nos faz sentir o perdão de Deus, e nos enche de esperança. Assim, passamos a ver o mundo com outros olhos, os mesmos olhos com os quais Deus nos vê. Já afirmei em outra ocasião que o mundo ocidental seria outro se, ao invés das cruzes, os altares de nossas igrejas tivessem manjedouras. Mesmo a morte de Jesus, tão usada pelas igrejas para tentar nos converter à fé pela culpa por Ele ter sofrido em nosso lugar, não seria nada além de um simples martírio, não teria sentido algum, se depois não houvesse a ressurreição. E a ressurreição de Cristo, que prenuncia a ressurreição de todos nós para uma nova vida, é um novo nascimento. A ressurreição é um novo Natal!
Precisamos parar para refletir sobre essa questão tão importante. Jesus jamais esperou datas especiais, muito menos as ocasiões festivas, para fazer o bem, para anunciar o Reino de Deus. Jesus curava, consolava e ensinava sempre que se via diante de alguém que carecia de cura, de consolo ou de ensino, não importando qual fosse o momento. Inclusive durante as famosas “Bodas de Caná”, narradas no Evangelho de João (quando Jesus transforma água em vinho), o Mestre não hesita em atender ao pedido de um necessitado, mesmo sabendo que “ainda não havia chegado a sua hora”. E Jesus nos manda o tempo todo amarmos uns aos outros como Ele nos amou. Essa disposição de ânimo altruísta que toma conta de nós na época do Natal deve nos acompanhar durante todos os dias de nossas vidas. O tempo de fazer o bem é o tempo presente. A hora de socorrermos nosso próximo é agora. E o nosso próximo é qualquer pessoa que esteja ao alcance de nossas mãos amigas. No Natal, nós devemos celebrar a esperança, o amor e o perdão que deveríamos exercer ao longo de todo o ano. A única diferença é que no Natal ninguém vai estranhar se fizermos isso fantasiados de Papai Noel.
 

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

OLHAR PARA ALÉM DO ESPELHO


Quando eu olho o meu olho além do espelho
Tem alguém que me olha e não sou eu

(da canção "Além do Espelho", de João Nogueira e Paulo César Pinheiro)


Falar de nós mesmos no fundo não é nada além de dissecar os rótulos colados sobre nós ao longo de nossas vidas. Após retirarmos todos os rótulos um a um, nós os colocamos em prateleiras intelectuais, catalogando-os segundo critérios bem definidos socialmente. Sobra então apenas uma essência, mas essa nos é absolutamente intangível, e talvez constitua nossa verdadeira Alma, não sei ao certo. Não percebemos, ao fim das contas, que nossa totalidade é maior do que a soma de nossas partes. Somos algo além da mera adição das características adquiridas ao longo da existência.
Na maioria das vezes, nos tornamos tão identificados com o personagem criado a partir da sobreposição de nossos rótulos, que chegamos a confundir esse personagem com nossa essência, como se eles fossem ontologicamente criados junto conosco, e não fossem construídos ao longo de nossa trajetória pessoal. Afirmei isso incontáveis vezes. Mas algumas pessoas ultrapassam essa lógica, e identificam seus personagens com um único rótulo, um único aspecto da vida, ignorando ou mesmo negando todos os outros. São pessoas tão marcadas por seus rótulos, que eles chegam até mesmo a substituir seus nomes – e mesmo nomes não passam de rótulos, não podemos esquecer. Não temos mais o João, a Maria ou o Pedro. Temos em seus lugares o “flamenguista”, o “engenheiro”, o “crente”, ou qualquer coisa parecida. E acabamos por não perceber que cada João, cada Maria ou cada Pedro pode ser todas as coisas citadas ao mesmo tempo, e muitas outras. Raramente um rótulo exclui o outro.
Sendo assim, onde iremos encontrar o Rodrigo? Estaria ele no filho, no irmão ou no neto? Talvez no psicólogo? Quem sabe então no servidor público? No torcedor do Flamengo? No amante de uma Brahma gelada? No poeta? No tocador de viola caipira? No maçom? No cristão liberal? No roqueiro? No estudante de alemão? No comunista? Para ser sincero, em todos eles e em nenhum deles. Sou totalmente Rodrigo em todos esses aspectos, e em muitos outros – não citados apenas por questão de espaço – e ao mesmo tempo não me reduzo a nenhum deles. Sou na verdade um caleidoscópio, um mosaico de todos os rótulos adquiridos ao longo da vida. E tal como um caleidoscópio, cada movimento meu rearruma as diversas imagens, formando sempre imagens novas, caóticas no mais das vezes, é bem verdade. Mas ainda assim belas. E mesmo os rótulos já abandonados ainda me compõem. Não sou mais bancário, por exemplo, mas o fato de tê-lo sido um dia marcou meu ser de forma indelével, ainda faz parte de mim.
Portanto, ao serem perguntados acerca de mim, de quem eu sou, não respondam de modo a reduzir-me a um de meus muitos aspectos, a um único rótulo, ainda que para vocês ele pareça ser o mais marcante. Sou um conjunto único de fatores, e por ser único sou inominável. Apenas por conveniência, chamem esse conjunto de fatores de “Rodrigo” (pelo menos é isso o que se lê em meus documentos), e ao invés de tentar me dissecar, limitem-se a apontar o caleidoscópio que me dá forma.
Gosto dessa analogia do caleidoscópio porque ele se refaz a cada movimento. A cada giro, o caleidoscópio se transforma em uma pintura nova. Sem se mover, contudo, seria apenas uma imagem, um quadro estático. Poderia até ser belo, mas não teria vida, e estaria fadado a, cedo ou tarde, tornar-se um mero enfado, cobrir-se de poeira.
No final, sou uma soma de infinitos fatores: cada livro lido, cada canção ouvida ou cantada, cada imagem vislumbrada, cada palavra dita ou ouvida, cada poema escrito, cada sorriso aberto, cada lágrima derramada, cada beijo dado ou negado, cada pessoa conhecida, amada ou odiada, enfim, cada um desses elementos contribui com suas cores para a formação desse quadro complexo chamado EU. Quadro caleidoscópico, puro movimento, formando sempre novas imagens. E a cada dia, a todo momento, um novo pintor da vida acrescenta sua marca pessoal, seus tons e formas, e assim ajuda a compor meu quadro. Sou grato a Deus por todos eles.
            Agradeço a Deus não apenas pelas bênçãos concedidas, mas também por todas as tribulações permitidas. Mesmo o mais obtuso dos sofrimentos pode ser entendido como dádiva, quando ele se apresenta a nós como pedagogo, e nos ensina lições que de outra forma jamais poderíamos aprender. Às vezes, precisamos perder as nossas pernas para aprendermos a caminhar com o espírito. E mesmo o sofrimento é um pintor de quadros, e nos tinge com suas cores. Cores tristes, mas belas. Jamais nos esqueçamos: o cinza também é uma cor. Também tem sua beleza.
No lugar de me lamentar a cada intempérie, prefiro indagar a Deus sobre o propósito Dele em permitir que as coisas aconteçam dessa forma, e tenho a mais absoluta certeza de que mesmo o mais mortal dos sofrimentos contribuirá com a formação dessa obra de arte única de Deus chamada EU. E o mesmo pode ser dito de qualquer pessoa.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O RESPEITO ÀS DIFERENÇAS


Já não há mais culpado, nem inocente
Cada pessoa ou coisa é diferente
Já que é assim baseado em quê você pune quem não é você?
(da canção “Novo Aeon", de Raul Seixas, Claudio Roberto e Marcelo Motta)

“Quando você for elogiar a magnífica onça-pintada que o patrão caçou, muito cuidado: vai ver que o que ele acha o máximo da habilidade é caçar gambá” (Millôr Fernandes)


Dias atrás, estava eu na mesa do bar de um amigo, conversando com um grupo de pessoas. Comentávamos o recém acontecido casamento de um primo meu, do qual fui padrinho. Meu primo, (além de primo um de meus melhores amigos) sempre foi uma pessoa extremamente extrovertida, e isso muitas vezes fazia as pessoas não o levarem a sério. Muitos o achavam irresponsável, e apostavam que ele jamais seria alguém na vida. Mas em seu casamento, ele resolveu provar ao mundo que era alguém, brindando-nos com uma festa altamente extravagante. Na cerimônia, presença de quatro padres, e um festival de piadinhas, quase todas partindo do próprio noivo, como a simulação de uma crise de tosse na hora de dizer “SIM”.  Até mesmo os padres contaram suas anedotas. Tudo muito descontraído, as pessoas riram o tempo todo. E era uma cerimônia católica de casamento. Alguns, inclusive, consideraram desrespeitoso. A chegada dos noivos no salão de festas foi saudada pelos padrinhos (mais de vinte casais) portando velas acesas, formando um cortejo, enquanto o noivo explodia um tubo que arremessou um bocado de papel celofane picado para o ar. Tivemos ainda queima de fogos, música ao vivo (da qual os convidados que eram músicos puderam participar), e quase 500 litros de chopp, servidos em canecas de acrílico estampadas com a caricatura dos noivos, que os convidados levaram para casa, como recordação. Tudo isso, somados aos mais de dez anos de namoro do casal, tornou o evento o acontecimento do ano no bairro.
            Na mesa do bar, alguns diziam ter sido o evento um gasto de dinheiro inútil (e não foi pouco, diga-se de passagem). Haveriam maneiras mais inteligentes e úteis de gastar esse dinheiro, diziam. No fim, todos pareciam concordar que não apenas esta, mas toda e qualquer festa de casamento seria um gasto inútil de dinheiro. Até mesmo eu concordo com isso em larga medida, mas não demorou muito para uma das mulheres à mesa reclamar: “mas toda mulher sonha em casar de véu e grinalda”.  Por que razão as mulheres costumam dar tanto valor a coisas sem nenhum sentido prático? Flores, festas de casamento, poemas declamados, caixas de bombons, o mero reparar na mudança de um penteado, são todos fetiches altamente valorizados pelas mulheres, e tremendamente desprezados pelos homens. Nós, homens, só nos preocupamos com isso quando essas coisas se tornam “ferramentas”, quando nos ajudam a conquistar e/ou agradar as mulheres.
            Sempre existem exceções, mas em geral os homens valorizam as coisas pelo seu aspecto prático, racional, enquanto as mulheres se orientam por uma escala de valores afetivos. Já repararam como são freqüentes as situações em que um grupo simplesmente não consegue entender as motivações do outro, e quantas desavenças surgem exatamente dessa falta de compreensão? Isso só reafirma uma situação óbvia: homens e mulheres são diferentes, têm suas peculiaridades. Assim também as crianças, os idosos, enfim, cada indivíduo desse mundo tem suas particularidades, cada ente desse planeta (e de qualquer outro, até onde sei) é um ser único, inimitável, que jamais vai se repetir. E estas singularidades devem ser, antes de tudo, respeitadas, mesmo se nos parecerem estranhas, de mau gosto, loucas, ou até mesmo ridículas.
            Em geral, a sociedade elege um conjunto específico de características, gostos e hábitos como sendo o padrão, como “o correto”, “o jeito saudável de ser”, como aquilo que define as “pessoas legais” (aquelas que você nunca pode deixar de convidar para sua festa, especialmente se você quiser a presença de alguns paparazzi). O mercado de trabalho faz a mesma coisa ao criar o estereótipo do “bom profissional”. Todo mundo então passa a viver tentando se moldar a esses estereótipos, numa busca neurótica por aceitação social, por sucesso na vida, por um lugar em seu grupo social. Assim, nós queremos sempre nos vestir com as cores da moda, ouvir as canções da moda, assistir aos filmes da moda, comer os venenos com gergelim da moda, enfim, queremos fazer tudo o que fazem as pessoas que estão na moda. “Eu tenho que fazer isso porque as pessoas legais fazem isso, e eu também quero ser visto como uma pessoa legal”. Essa voz de comando povoa o inconsciente de quase todos nós. Apenas não costumamos nos dar conta disso, não temos consciência de sermos assim. Mas é uma voz praticamente onipresente, o tempo todo guiando nossas ações.
Os meios de comunicação exercem um papel crucial nesse processo, vendendo ao público imagens, sonhos, metas e desejos, quase sempre ilusórios, inatingíveis. A mídia fabrica incessantemente esses estereótipos, invadindo todos os dias nossa privacidade, e sussurrando em nossos ouvidos palavras sobre como devemos ser, como devemos nos comportar, do que devemos gostar e não gostar. Esse processo de massificação é mais profundo entre os jovens e adolescentes, por esses estarem ainda formando suas personalidades, e por serem os grupos etários mais suscetíveis às questões de aceitação por parte de seus grupos sociais. Permitam-me dar um exemplo ilustrativo: uma determinada atriz de TV aparece num programa de auditório dominical usando um corte de cabelo ou uma roupa nova, e dias depois todas as mulheres a estão imitando, inconscientemente esperando que isso as torne tão glamorosas como a atriz. Não tem a menor importância se uma semana atrás aquele corte de cabelo ou aquela roupa fossem considerados de péssimo gosto; agora eles se tornam o último grito da moda. Se a atriz estiver protagonizando algum personagem importante de novela nesse momento, a coisa será ainda mais gritante. E afinal, o que mudou? Mudou o gosto das pessoas? Não, mudou tão somente o fato de alguém famoso, formador de opinião, dizer que é legal.
Mas o que acontece com as pessoas que são se adéquam a esses padrões sociais? Esses só são convidados para as festas por uma questão de obrigação, de boas maneiras. Em geral eles são postos de lado, censurados por seu jeito de ser, e frequentemente admoestados o tempo todo a mudarem de atitude, a se moldarem conforme os padrões, a serem como todo mundo. “Desse jeito, ninguém vai gostar de você!”, ouvimos esse conselho desde a nossa infância. Esses indivíduos ganham a alcunha de esquisitos, excêntricos, ou até de loucos. E qual a solução para essas pessoas? Muitos acabam se juntando a outros indivíduos cujos gostos são parecidos com os seus, e assim formam guetos, chamados hoje de “tribos” pelo jargão politicamente correto. Outros acabam vivendo suas alteridades de forma tão intensa e violenta, que acabam por enlouquecer mesmo, literalmente, e no fim são “tratados”, para voltarem a ser como todo mundo. O que são as mais variadas terapias psiquiátricas e psicológicas senão um processo de formatação, de adequar o indivíduo aos padrões socialmente aceitos? Por fim, alguns desistem de serem eles mesmos, para vestir a camisa dos “socialmente corretos”. O preço disso é a eterna tensão de viver um personagem com o qual não se está identificado. Essa tensão está na base de uma série de neuroses, mas uma vez que elas são oriundas do modo de vida consagrado pela sociedade, imposto a um sujeito que não se adapta a viver desse jeito, essas disfunções passam a ser entendidas por todos como coisas normais, meros efeitos colaterais da pós-modernidade. Acabam então sendo atribuídas a fatores outros como “o stress do dia-a-dia”, ou coisas do gênero, o que até confere ao indivíduo uma certa aura de heroísmo, por ele ser visto como uma vítima das conseqüências do estilo de vida moderno. E essa vitimização no fim compensa o preço pago. “Eu vou pagar a conta do analista, para nunca mais ter que saber quem eu sou”, dizia Cazuza. Quantos não preferem pagar o preço?
E o que torna tão difícil para as pessoas “normais” aceitarem e conviverem bem com quem é “diferente”? A resposta é simples: adequar-se aos padrões socialmente consagrados confere ao indivíduo um sentimento de aceitação, dá a ele uma imagem de pessoa querida, de que todas as pessoas o amarão, e irão querê-lo por perto. Garante o sentimento de pertencimento ao seu grupo. Nossa sociedade vende essa idéia como o ideal de felicidade; o indivíduo é violentamente convencido de que ser feliz é pensar como todo mundo, freqüentar os lugares que todos freqüentam, dançar e cantar as mesmas músicas, beber a mesma bebida, vestir o mesmo tipo de roupa. Resumindo: ser feliz é ser aceito. E para ser aceito por todos, é preciso ser como todos são. Afinal, esse é o raciocínio lógico: se essa é a opção da maioria, deve ser a melhor opção. Ninguém percebe que esses padrões são socialmente construídos, tendo muitas vezes como motivação o consumo, vender novos estilos de vida, e com isso novos produtos, mover a mola do capitalismo, criando demandas, produzindo desejos. Um novo estilo musical, por exemplo, se torna febre porque a mídia nos convence disso, independente da qualidade desse estilo musical.
As pessoas se agarram com unhas e dentes a essa idéia, e esta passa a dar sentido a suas vidas. Elas se convencem de que só serão felizes se forem aceitas pela sociedade, e só serão aceitas caso se comportem da forma como a sociedade determina. Só assim é possível ser feliz, não há uma alternativa, um “plano B”. O que fazer, então, quando estamos diante de alguém que simplesmente não segue nossas regras, mas ao mesmo tempo mostra-se muito feliz, em muitas ocasiões parece até mais feliz do que nós? Eis aqui a raiz do problema: a alteridade, a diversidade, o fato de alguém conseguir viver guiado por valores diferentes dos nossos, e ainda assim viver feliz, nos força a relativizarmos nossos próprios valores, nosso próprio conceito de felicidade. Faz-nos ter de admitir que essa afirmação de que a felicidade só é possível para quem vive como nós é simplesmente falsa. E como muitas pessoas preferem simplesmente não ver os seus problemas a encará-los, muitos preferem discriminar, deixar de lado a alteridade, não precisar conviver com ela, tirar a diferença do campo visual, tentar fingir que as diferenças não existem. Para não ter de admitir que minha receita de felicidade não é a única, e talvez nem seja a mais eficaz, eu acabo extirpando de meu convívio quem possui outras receitas. Muitos pensam assim. E pior, agem assim.
Claro que toda moeda possui duas faces. Não estou aqui fazendo uma apologia à subversão ou à diferença. Muito menos quero obrigar quem se adéqua bem aos padrões da sociedade a mudar, a tornar-se diferente. Cada um tem o direito de ser como quiser, de viver como bem entender. Assim como seguir as normas sociais não garante a ninguém a felicidade, ser diferente também não o faz. Muita gente se esconde em guetos, assume alteridades, apenas porque não consegue tanta aceitação quanto deseja fora desses guetos. Sem conseguir sucesso entre os “normais”, muitos deles se fingem de “diferentes”, para serem aceitos pelos “diferentes”. Isso é o mesmo que viver tentando se adequar aos valores socialmente consagrados, e produz neuroses do mesmo jeito. Não há nenhum valor real em se abandonar uma posição extremista em favor de outra tão radical quanto.
Meu apelo é apenas para que olhemos para quem é diferente exatamente como ele é, e não mais do que isso: como alguém diferente. Mas como alguém. Ser humano como nós, digno como nós, com direitos e deveres como nós. Tentar moldar as pessoas aos nossos padrões é violência psicológica, uma das piores formas de violência que podemos ter para com nosso semelhante (ou nosso “dessemelhante”), Não aceitar suas diferenças é discriminação. Tentar extirpar a diferença de nossa vida é ilusão. E ser feliz é ser como se é, e não como querem que sejamos. Não importa quem queira isso.