sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

JUSTIÇA FEITA. O QUE SEMPRE FOI LEGITIMO AGORA TAMBEM E LEGAL.


"Uma vez Flamengo, sempre Flamengo"
"E o meu maior prazer vê-lo brilhar"
"Uma vez Flamengo, Flamengo até morrer"
"Eu teria um desgosto profundo, se faltasse o Flamengo no mundo!"
(Trechos do Hino Oficial do Flamengo)


            Na última semana, teve um provável fim a maior polêmica da história do futebol brasileiro. Depois de 24 anos, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol, órgão máximo do futebol em nosso país) finalmente reconheceu o Clube de Regatas do Flamengo como Campeão Brasileiro de 1987. Não quero ainda entrar no mérito dos aspectos históricos dessa polêmica, nem no fato da motivação da CBF para esse gesto ter sido meramente política (ninguém em sã consciência vai achar que a CBF “viu a luz”, se converteu e resolveu fazer justiça). Quero me ater por enquanto apenas ao fato de que essa discussão, apesar de aparentemente só envolver o futebol e todo o circo criado em torno dele, na verdade nos remete a um reflexão filosófica muito maior, que é aquela da diferença entre a LEGALIDADE e a LEGITIMIDADE. Essas palavras parecem significar a mesma coisa, mas os aspetos sutis de cada uma delas revelam uma diferença semântica abismal. Quando as pessoas ou a imprensa discutiam se o Flamengo era hexa ou penta-campeão brasileiro, sem saber, estavam argumentando de maneira a questionar não a legalidade do título, mas sim sua legitimidade. Para quase todos os que negavam a legitimidade do hexa rubro-negro, o argumento era simples: só vale o que é legal. Quem estabelece a legalidade no futebol brasileiro é a CBF. E se a CBF não reconhecia a legalidade do título de 1987, então o Flamengo não seria o campeão. Os defensores do hexa, por seu turno, questionavam a lisura do processo que levou ao não reconhecimento do título rubro-negro, uma vez que o cruzamento entre os clubes dos dois módulos não estava previsto no regulamento da competição, sendo proposto já com ela em andamento. O Flamengo então, estaria sendo “punido” por ter cumprido a lei, e por ter se negado a ser conivente com um golpe. Assim, por mais que a situação do Flamengo fosse “legal”, no sentido da lei não o reconhecer como campeão, a lei em si não possuiria legitimidade, por se calcar sobre uma manobra ilegítima. E assim o Flamengo seria o legítimo campeão.
            Inicialmente, pensemos no aspecto comum entre os dois conceitos. Ambos estão embasados em um mesmo alicerce filosófico: a autoridade. Mas já aqui surge uma grande diferença entre a legalidade e a legitimidade. Elas não têm necessariamente o mesmo referencial de autoridade. A legalidade, por exemplo, faz referência àquilo que é “legal”, ou seja, àquilo que está em conformidade com a lei. Mas como alguma coisa é elevada ao status de lei? Quem, afinal de contas, decide o que será e o que não será lei? Segundo Foucault, nossa sociedade opera a partir de mecanismos de poder, vigilância, controle e punição. Esses são os fatores reguladores do comportamento humano em nossas sociedades “civilizadas”. A justificativa é clara, e aparentemente justa: sem esses mecanismos, viveríamos uma espécie de barbárie, e retornaríamos a um modus vivendi semelhante ao do mundo selvagem, regido pela Lei da Seleção Natural, descrita por Darwin, na qual a competição entre os indivíduos garantiria a sobrevivência apenas dos mais aptos. Obviamente isso feriria nosso conceito já atávico de dignidade individual da pessoa humana (Nietzsche em nível teórico, e o capitalismo e os políticos em nível prático, rompem com essa lógica, mas isso é assunto para um estudo à parte). Nossa diferença em relação aos seres selvagens seria exatamente o fato de postularmos regras de comportamento, que nos protegem a cada um, individual e coletivamente, e às quais todos devemos nos submeter. Essas regras estabelecem direitos e deveres para cada indivíduo, e se todos cumprirem à risca as regras, a sociedade como um todo funcionará a contento. Aqui entram os mecanismos foucaultianos. Os de vigilância e controle para todos os indivíduos, e os de punição apenas para aqueles que não cumprem as regras legais socialmente estabelecidas.
            Mas como a legalidade é determinada? Ela é elaborada e mantida por aqueles que exercem o poder, e aqui começa o problema: nem sempre os indivíduos que exercem o poder o fazem com a aprovação de todos, visando os interesses e o bem comuns. O poder pode ser exercido de duas maneiras. Uma delas seria a partir de um consenso da maioria (todos reconhecem a autoridade de quem está no poder, como no caso de nossas eleições). Mas muitas vezes quem exerce o poder o faz por meio da simples força; a história do mundo está repleta de ditaduras e outros sistemas opressores, sendo muitas vezes odiados por uma maioria obrigada a se manter silenciosa, sob pena de sofrerem severas punições. Mas mesmo assim esses indivíduos exercem o poder. Seus decretos são tecnicamente “legais”, ou seja, possuem o status de lei, por mais injustos, vis e cruéis que possam vir a ser. A execução de judeus e outros grupos étnicos na Alemanha dos tempos da Segunda Guerra Mundial, levada a cabo por Hitler, era “legal”, ou seja, estava na lei. Mas podemos considerar essas atrocidades como legítimas?
           Em uma sociedade ideal, tudo o que é legal é legítimo, e vice-versa. Mas o mundo real é bastante diferente. A legitimidade se baseia em outro princípio de autoridade, que é o também atávico conceito de justiça. Segundo Kant, o ser humano possui uma espécie de conhecimento inato do certo e do errado, e para ele esse é o único argumento filosófico válido para demonstrar a existência de Deus. Para Kant, o homem não seria capaz, por si só, de elaborar esses conceitos. E mesmo o mais injusto dos homens tem consciência deles. Por mais perverso que possa ser, ele percebe estar agindo de forma “errada”, quando assim o faz. A ideia de Kant não era de que a justiça fosse algo inerente ao homem, mas sim o conhecimento do que é justo. No contexto cristão, essa lógica se revela na teologia do Pecado Original, que teria feito com que o homem deixasse de ter condições de agir com justiça, mesmo sem perder o conhecimento do que era e do que não era justo, e só a salvação de Cristo poderia libertar o homem dessa situação. Mas mesmo se não formos cristãos, ou se o formos, mas não aceitarmos a ideia do pecado original (como é o meu caso), não podemos negar: mesmo o mais torpe dos homens conhece os conceitos de amor, bondade, justiça etc. Essa então seria a base do conceito de legitimidade. Uma coisa é tão mais legítima quanto mais ela se aproximar desses valores, independente de estar ou não em conformidade com a lei vigente.
            Em 1987, o Flamengo, juntamente com o Internacional de Porto Alegre, clube vice-campeão da Copa União (que seria o legal e legítimo campeonato brasileiro do ano, uma vez que a CBF se declarou sem condições de organizar o campeonato brasileiro naquela época, repassando essa tarefa aos clubes) se recusou a ser conivente com um golpe, que transformaria a Copa União em apenas um módulo do campeonato brasileiro, sendo o outro módulo formado pelo campeonato organizado pela própria CBF. A CBF só começou a organizar sua própria competição porque percebeu que o contrato firmado pelos clubes que disputavam a Copa União com a emissora de TV que comprou os direitos de transmissão dos jogos era altamente rentável, e assim ela propôs um cruzamento entre o campeão e o vice de cada módulo (e não apenas o campeão, como querem nos fazer acreditar alguns hipócritas que apelavam para a legalidade a fim de negar o título do Flamengo, e agora rejeitam essa mesma legalidade para continuar negando). Essa proposta não tinha a menor legitimidade pela seguinte razão: ela foi apresentada já com a Copa União em andamento, ou seja, TENTARAM MUDAR AS REGRAS DO JOGO DEPOIS DELE JA TER COMEÇADO. O Clube do 13, formado pelos clubes que organizaram a Copa União, se recusou a acatar essa barbaridade, e decidiu que esse cruzamento de equipes não aconteceria. Para o Clube dos 13, o campeão da Copa União seria o legítimo Campeão Brasileiro de 1987. O Flamengo, como membro do clube, HONROU SEU COMPROMISSO, e pagou com isso o preço de não ter seu título reconhecido por mais de duas décadas. A CBF, cheia de legalidade e totalmente vazia de legitimidade, manteve o “golpe de estado” que ela mesma propôs, e decretou o campeão de seu campeonato como o campeão brasileiro, mesmo tendo antes dito que seria o campeão da Copa União. A CBF, que por essas e outras “peripécias” foi ganhando, ao longo dos anos, o status de uma das instituições mais desacreditadas desse país, agora tenta recuperar prestígio, e com isso ganhar força política.
            Tardiamente, mas antes tarde do que nunca, a justiça finalmente foi feita. Não importa com que motivação, a CBF reconheceu o Flamengo como Campeão Brasileiro de 1987, para o amargor daqueles que sabem tudo de legalidade e nada de legitimidade, e mesmo assim só apelam para a legalidade quando lhes convêm. O Flamengo sempre foi o campeão de FATO (legitimidade). E agora ele o é de DIREITO (legalidade).

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O CEU DE ICARO NAO TEM MAIS POESIA QUE O DE GALILEU


Tendo a Lua aquela gravidade aonde o homem flutua
Merecia a visita, não de militares
Mas de bailarinos
E de você e eu
(da canção "Tendo a Lua", gravada pelos Paralamas do Sucesso)

Vem sentir o poder, vem conhecer o segredo
De quem te projetou com amor
Corpo, alma e espírito
Elo de vida com o Criador
Você é fruto do sonho de Deus
(da canção "Gênesis", gravada pelo grupo Katsbarnea) 


            Há poucos dias atrás, comecei a pôr em prática um antigo projeto de infância. Como não tenho mais as “despesas operacionais” de um antigo empreendimento fadado ao fracasso, resolvi investir num novo hobby: a Astronomia Amadora. Depois de muito pesquisar na internet e em livros, e de me ver totalmente confuso com a miríade de modelos, marcas e preços dos telescópios disponíveis no mercado, bem como as diferentes opiniões dos astrônomos amadores sobre os mesmos, decidi começar seguindo o único conselho unânime entre os praticantes de astronomia amadora: comprei um bom binóculo.
            É incrível o quanto se pode ter de experiência em astronomia amadora com um simples e bom binóculo. Munido dele, de um tripé para evitar as inevitáveis tremulações das mãos, dado o peso, e do Stellarium, tido como o melhor programa de mapas astronômicos que existe, bonito e fácil de usar, com inúmeros recursos, além de ser gratuito, e de ter versões para Microsoft Windows, Linux e Mac Os X, lá fui eu esquadrinhar o céu, imbuído de absolutamente nenhum espírito científico. Minha intenção era tão somente descobrir o quanto o céu é belo. Em pouco mais de uma semana, e após adquirir prática com o manuseio do equipamento, consegui vislumbrar diversos aspectos da topografia da Lua, a Grande Nebulosa de Órion, bem como Júpiter e suas quatro maiores luas (Io, Ganímedes, Calixto e Europa, também conhecidas como “luas galileanas”, por terem sido descobertas por Galileu Galilei). Além disso, o binóculo revelou uma quantidade de estrelas muito maior do que aquelas visíveis a olho nu.


           Da Lua pude vislumbrar crateras, crateras raiadas (saem delas formações parecidas com ranhuras), alguns dos maiores montes, e alguns mares. Os mares lunares são, na verdade, planícies de coloração mais escura do que o restante do solo, e ganharam esse nome porque os antigos acreditavam serem eles mares de verdade, com água em estado líquido. Hoje se sabe que existe apenas gelo nos pólos da Lua. 


Nebulosas são grandes nuvens de poeira, hidrogênio e plasma, de cores e formas variadas, absolutamente espetaculares. Todavia, suas cores só são visíveis através de telescópios mais potentes. Pelo binóculo pude vislumbrar apenas algo como uma nuvem ou uma fumaça esbranquiçada, aparentemente mais distante do que as estrelas. A Grande Nebulosa de Órion está situada “acima” das famosas “Três Marias”, as três estrelas praticamente alinhadas, no centro da constelação de Órion.


Já Júpiter distingue-se de uma estrela pelo fato destas terem sempre o aspecto de estrela, seja a olho nu, seja pelo binóculo (algumas estrelas, pelo binóculo, se mostram da verdade um par delas, constituindo sistemas solares binários, e existem até sistemas ternários, mas esses eu ainda não pude ver). Júpiter, por seu turno, aparece nas lentes do binóculo como uma bolinha alaranjada, de contornos definidos, com quatro pequenas luzes à sua volta, exatamente as quatro luas galileanas. Sempre me intrigou o fato de Galileu Galilei ter conseguido identificar quatro luas em Júpiter utilizando apenas uma luneta rudimentar. E qual não foi minha surpresa ao me ver fazendo o mesmo, e até com certa facilidade. No início, eu interpretei os quatro pontinhos luminosos como algum fenômeno ótico afetando o bom funcionamento das lentes. Mas logo depois percebi que eles mudavam de posição a cada observação (costumo fazer uma por noite, sempre que as condições metereológicas assim o permitem). Consultando a internet, confirmei serem os pontinhos as quatro luas galileanas de Júpiter. E como a cada dia elas estão em posições diferentes, e tendo em vista o tamanho do planeta, concluí que a velocidade das luas deveria ser vertiginosa. Pesquisando novamente na internet, descobri que Io, por exemplo, viaja a 17,33 km/s. Como um dia na Terra possui 86400 segundos, isso significa um percurso de 1.497.312 quilômetros a cada dia. Não espanta o fato das luas de Júpiter parecerem dançar.


           Apesar da aparente cientificidade de minhas palavras, meu olhar de astrônomo amador não tem quase nada de científico. Tampouco estou muito interessado no céu dos poetas, apesar de ser inclinado à poesia, e de volta e meia declinar minha vida em versos não tão belos quanto a motivação para escrevê-los. Meu olhar para o céu é de uma reverência quase religiosa. Na beleza desses corpos celestes, bem como em outros detalhes do Universo, transcreve-se a Sabedoria e o Amor de Deus. A Criação proclama aos quatro ventos a existência do Criador.
Vivemos em um planeta Terra absolutamente aconchegante e acolhedor. Nossa mãe Gaia reuniu, ao longo de alguns poucos bilhões de anos, todas as condições necessárias para o desenvolvimento da vida, desde o mais simples organismo unicelular, até seres capazes de amar e odiar, de orar a Deus e fazer guerra, de fazer ciência, cantar canções, e de se indagar acerca do sentido e do destino de sua própria existência. Mas isso só foi possível graças a um conjunto enorme de fatores reunidos. Bastaria que faltasse qualquer um desses fatores, um único deles, para que a vida na Terra se tornasse inviável.
Praticar astronomia amadora me coloca frente a frente, e de uma maneira única, com alguns desses fatores que possibilitaram o desenvolvimento da vida na Terra. Vejamos a Lua: uma imensa rocha fria e sem vida, com um terço do tamanho de nosso planeta, fruto da colisão da jovem Terra com outro planeta, no início da história do Sistema Solar. Linda, apesar da desolação de sua paisagem, ela reflete em tons prata a luz recebida do Sol, iluminando nossas noites, e inspirando os poetas e casais de namorados. À Lua são dedicados os mais melodiosos uivos dos cães e lobos, e os mais brilhantes delírios dos loucos. Mas o que realmente a Lua representa para nós? Cientificamente, sabemos que ela, através de sua ação gravitacional sobre a Terra, atua como uma espécie de prumo, garantindo a estabilidade dos movimentos de rotação (ao redor de si mesma) e de translação (ao redor do Sol) da própria Terra. Sem a Lua, nosso planeta bailaria desgovernado pelo espaço, podendo colidir-se com outro corpo celeste, ou mesmo perder-se para fora das fronteiras de nosso sistema solar, impossibilitando o surgimento de toda e qualquer forma de vida.  Isso também aconteceria hoje, se a Lua fosse destruída de uma hora para outra. Seria um espetáculo único, mas aniquilaria toda a vida na Terra. Não sobraria nenhuma testemunha para lembrar o fato.
Júpiter, aquela pequena bolinha amarela com quatro minúsculos pontinhos luminosos dançando ao seu redor, é na verdade um gigante gasoso, o maior planeta de nosso sistema solar. Composto principalmente de hidrogênio e hélio em forma gasosa (sequer sabemos se ele possui um núcleo sólido) a massa de Júpiter é cerca de 2,5 vezes maior do que a soma da massa de todos os outros planetas do Sistema Solar. Com isso, sua força gravitacional é imensa, fazendo com que ele atraia para si todos os corpos celestes menores que passam próximo de seu campo gravitacional. Acredita-se que a maioria das dezenas de luas de Júpiter sejam asteróides capturados pela força de seu campo gravitacional. Os meteoros que compõem seus anéis (sim, foi descoberto recentemente que Júpiter também possui anéis, porém não tão vistosos quanto os de Saturno) são, com certeza, capturados de fora. Assim, sem a proteção de Júpiter, a Terra seria até hoje bombardeada por meteoros, tal como o foi nos primeiros momentos de sua vida. Isso fatalmente também faria impossível o surgimento da vida.
As nebulosas não nos protegem contra nenhum perigo, mas elas são distantes restos da Grande Explosão (o famoso Big Bang) lançados no espaço, como a poeira da implosão de um prédio. Segundo a ciência, a grande explosão transformou a massa de densidade infinita, que inicialmente compunha o cosmo, no universo tal como o conhecemos hoje. Essa explosão que criou o universo precisou de uma causa exterior ao próprio universo para poder acontecer, do contrário o equilíbrio do sistema não seria abalado, e nada ocorreria. Eu chamo essa causa exterior de Deus, e Albert Einstein certamente concordaria comigo. “Deus não joga dados com o universo”, dizia sempre ele. As nebulosas, então, seriam o eco do FIAT divino. Seriam os escombros da explosão provocada pela voz de Deus, que “no princípio criou os céus e a terra” (Gn 1:1).
Simplesmente extasiado. É como me sinto podendo admirar, através de um simples binóculo, algo dessas maravilhas criadas por Deus, seja para me proteger e tornar minha existência possível, seja para me servir de testemunha de que um dia Deus sonhou comigo, e planejou não apenas meu nascimento, mas também a minha casa, provendo com seu Amor e com seu Poder tudo o que fosse necessário para que eu viesse à luz. Todos os ingredientes necessários para a vida foram cuidadosamente colocados lá, no lugar certo, na hora certa, para que um dia pudéssemos existir e dizer: “obrigado, Senhor”. Cada vez que contemplo a Lua, vejo não apenas uma beleza apaixonante, mas um carinho e uma proteção de mãe, sempre mantendo seu filho num caminho reto, livre de perigos, nunca deixando ele se perder de seu campo visual. Minha vontade ao olhar a Lua é sempre dizer: “agradeço a Deus pela sua existência. Sem você eu não estaria aqui”. Júpiter é um guarda-costas, ou um irmão mais velho, sempre alerta para nos defender de assaltantes e agressores, mantendo-os longe, seguros pelos seus braços fortes, e as nebulosas nos lembram de um Deus que um dia nos planejou, e projetou de forma minuciosa a nossa morada. É um louvor a Deus contemplar a perfeição de sua Criação, como sugere o apóstolo Paulo em Rm 1:20.
Os corpos celestes são objetos de interesse científico, e ao mesmo tempo inspiram a mais bela das poesias. E a ciência com poesia tem o poder de nos aproximar de Deus. Basta olhar com os olhos certos.


sábado, 12 de fevereiro de 2011

ESCOLAS DE SAMBA, DE VIDA E MORTE SEVERINAS.



Não deixe o samba morrer
Não deixe o samba acabar
O morro foi feito de samba
De Samba, prá gente sambar

(da canção “Não Deixe o Samba Morrer”, de Edson Conceição e Aloísio)

            Infelizmente, o morro há muito tempo já não é mais feito de samba, e o samba não é mais para a gente sambar. Após um intenso processo de “pasteurização cultural”, o samba deixou de ser a manifestação por excelência da cultura afro-brasileira, para se transformar em mero mecanismo de entretenimento para consumo rápido, feito quase sempre para (e muitas vezes por) brancos de classe alta e média alta.
No início da semana, assistimos, pelos noticiários, a um incêndio na Cidade do Samba, na Zona Portuária do Rio de Janeiro, onde ficam os barracões das Escolas de Samba. Nos barracões são confeccionados e armazenados os carros alegóricos e as fantasias que serão usados nos desfiles. Quatro barracões foram atingidos, a menos de um mês do Carnaval, prejudicando irremediavelmente o desfile dessas escolas. Mesmo se houvesse dinheiro suficiente, já não há mais tempo hábil para recuperar os estragos. A LIESA (Liga Independente das Escolas de Samba, também conhecida como QGJB – Quartel General do Jogo do Bicho) decidiu que não haverá descenso para o segundo grupo.
           Quando de seu nascimento, as Escolas de Samba eram exatamente o que o nome delas sugeria: um local destinado ao aprendizado do samba. Nelas, as pessoas aprendiam a tocar, e principalmente a dançar. Posteriormente, as escolas começaram a organizar desfiles, visando mostrar ao mundo o talento de seus “alunos”. Não demorou muito para surgirem as competições para decidir qual a melhor escola. Inicialmente, cada pessoa que desfilava era responsável por confeccionar sua própria fantasia, mas estas, juntamente com as alegorias, passaram a ser padronizadas, a fim de se adequarem aos enredos. Os enredos seriam temas apresentados pelas Escolas de Samba durante o desfile, e tanto as fantasias e alegorias, quanto a letra do samba, deveriam estar relacionados com ele. Com o tempo, os temas dos enredos foram ficando cada vez mais herméticos, obscuros e ininteligíveis, absolutamente incompreensíveis para o morador dos morros onde se situam as escolas, e até mesmo para o grande público. Esse foi o início da elitização do desfile das Escolas de Samba, hoje totalmente pensado para o turista estrangeiro. Depois disso, muito dinheiro foi entrando, notadamente da contravenção penal, tornando hoje o desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro um grande circo (entendam circo, aqui, em seu pior sentido), chamado por muitos de “o maior espetáculo da Terra”. Bom, quem disse isso certamente nunca viu uma Aurora Austral. Mas mesmo assim, o evento é transmitido para os quatro cantos do mundo, sendo o principal chamariz do turismo no Rio de Janeiro.
            O universo das Escolas de Samba é palco de uma das maiores contradições humanas, deflagrando extremos opostos ocupando o mesmo espaço físico e social. De um lado temos o morador do morro (quase todas as Escolas de Samba do Rio de Janeiro estão localizadas em um morro). Morador de favela, de condição humilde, explorado pelo sistema, trabalha muito por baixíssimos salários, quando não luta contra o desemprego, além de ter de conviver diuturnamente com a violência endêmica do Rio de Janeiro. E ao longo do ano, esse sonhador doa seu sangue e sua alma para a Escola de Samba de sua comunidade, trabalhando arduamente na confecção, armazenamento e transporte das alegorias e fantasias. Tudo isso em nome de seus “quinze minutos de fama” (Andy Warhol dizia que todo ser humano deveria ter direito aos seus, mas no caso do morador do morro isso é quase literal). Por um período que varia entre dez e quinze minutos, o anônimo da favela tem seu momento de rei, quando ele atravessa o “palco iluminado” da Avenida Marquês de Sapucaí, exibindo uma pomposa e colorida fantasia, sendo visto e aplaudido por pessoas de todas as partes do mundo. Não são apenas os presentes no evento que aplaudem, afinal, o desfile é transmitido para o mundo inteiro. Nosso protagonista deixa então, pelo menos por um momento, de ser um Zé-ninguém sem nome e sem rosto, sem quase nenhum passado e absolutamente sem nenhum futuro, para se tornar uma celebridade. Ele se sente como um jogador de futebol, um ator ou cantor famoso, e talvez esse seja o único momento de sua vida em que ele se sinta amado, admirado, valorizado. Sua fantasia geralmente encarna algum personagem ou fato histórico importante, e não faz a menor diferença o fato de muitas vezes ele não fazer idéia de quem ou o que ele está representando. Todas as suas misérias, suas angústias e seus problemas são imediatamente esquecidos, substituídos por uma felicidade analgésica, e sua vida humilde dá lugar a um orgulho para lá de ufanista. Alienação de tudo em nome de alguns minutos de euforia e anestesia. Não parece coisa de usuários de droga? Mas as Escolas de Samba ocupam hoje o terceiro lugar no pódio dos mais eficazes mecanismos de alienação. As micaretas e o Big Brother seguem firmes, ocupando respectivamente o primeiro e o segundo lugar.
            Na qualidade de “Filósofo da Compaixão”, como me venho auto-intitulando, preciso ser compreensivo com essas pessoas. Vítimas de um sistema absolutamente cruel e opressor, sem vez nem voz na sociedade, párias destinados a uma vida de sofrimento, a maioria desses indivíduos sequer tem noção de sua condição de miséria, e muito menos tem noção do quanto esse mecanismo perverso em que as Escolas de Samba se tornaram contribui para a manutenção dessa situação de exploração. Esses curtos quinze minutos de fama são, para muitos deles, o único alento para suas existências. Muitas vezes é a única coisa que dá sentido às suas vidas.
           E do outro lado das contradições, vemos o circo das Escolas de Samba transformado num dos mais sujos e corruptos negócios. O desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (e São Paulo vai pelo mesmíssimo caminho) se presta hoje a três funções básicas. A primeira é servir de “auxiliar operacional” para a chamada “contravenção penal”, notadamente o jogo do bicho e a máfia dos caça-níqueis. Com isso, o concurso das Escolas de Samba perde totalmente a transparência, a honestidade e a lisura, e passa a operar com a mesma lógica da contravenção penal, ou seja: “ganha quem tem mais dinheiro e poder”. Em outras palavras, vence o desfile a Escola de Samba cujo bicheiro “mantenedor” está no momento mandando na LIESA. E isso sem citar o fato de que apoiar as Escolas de Samba não deixa de ser, em última análise, apoiar a contravenção penal com a qual elas mantêm íntima relação.
            A segunda distorção das Escolas de Samba é o fato de servirem de trampolim para semi-famosos, famosos, e quase-ex-famosos entrarem, permanecerem ou voltarem para a mídia. Dois caminhos são possíveis para isso, e muitos tentam os dois. Um deles é desfilar em alguma Escola de Samba (ou em muitas delas), sempre em posição de destaque. Aliás, o “momento celebridade” de nosso anônimo morador do morro é sempre em posições subalternas. Os lugares de destaque estão sempre reservados para as celebridades “de verdade”, gente geralmente rica, famosa, geralmente branca, que exibe padrões europeus de beleza. E quase sempre são pessoas sem a menor ligação com o samba. O outro caminho dos famosos é freqüentar os camarotes mais badalados da Marquês de Sapucaí, e conceder muitas entrevistas para os canais de TV, de preferência vestindo roupas que deixam à mostra partes estratégicas de seus corpos. E nosso amigo anônimo não pode chegar nem perto desses camarotes caríssimos.
            A terceira distorção das Escolas de Samba é a mais cruel e triste de todas. Sob o pretexto de exaltar a beleza da mulher brasileira, o desfile das Escola de Samba se tornou uma espécie de “zoológico de gente” (qualquer semelhança com o Big Brother não é mera coincidência). Trata-se, na verdade, de uma enorme exposição de peitos e bundas para os gringos de todo o mundo se deliciarem, e assim serem atraídos para o Brasil, motivados pela fama de paraíso do turismo sexual de que nosso país goza diante do resto do mundo. Basta ligar a TV durante a transmissão de um baile de Carnaval para podermos confirmar esse dado. E olha que estou falando de uma transmissão de TV, que é editada, censurada, recortada. Imaginem o que não deve ocorrer longe das lentes das câmeras. Num terceiro milênio no qual a mulher vem conquistando cada vez mais respeito e dignidade em quase todo o planeta, esse uso da mulher como objeto de contemplação sexual, e que não ocorre só no Carnaval, já deveria ser considerado inadmissível há muito tempo.
            Tenho pena do morador do morro, que viu seu sonho de um ano inteiro ser destruído pelo fogo em poucos minutos, por razões ainda desconhecidas, e que podem ser criminosas, uma vez que os contraventores se fingem de amigos no âmbito da LIESA, mas vivem se matando por debaixo dos panos, e obviamente os interesses (leia-se dinheiro) são outros. Não contemplam nem de longe a situação do morador da comunidade da Escola de Samba. Por esta vítima do sistema, quero manifestar toda a minha solidariedade. Mas me recuso a dar um suspiro sequer pela máfia que vive do crime, pelos pseudo-artistas que só querem auto-promoção, e principalmente pelos agentes e consumidores do turismo sexual. Aliás, o mundo estaria muito melhor sem eles.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O ROCK ERROU? MÚSICA E ALIENAÇÃO


Quando nascemos fomos programados
A receber o que vocês
Nos empurraram com os enlatados
Dos U.S.A., de nove as seis.

Desde pequenos nós comemos lixo
Comercial e industrial
Mas agora chegou nossa vez
Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês

Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Somos o futuro da nação
Geração Coca-Cola

Depois de 20 anos na escola
Não é difícil aprender
Todas as manhas do seu jogo sujo
Não é assim que tem que ser

Vamos fazer nosso dever de casa
E aí então vocês vão ver
Suas crianças derrubando reis
Fazer comédia no cinema com as suas leis

(da canção “Geração Coca-cola”, de Renato Russo e Fê Lemos)
  
                Toda manifestação de cultura popular nasce como uma espécie de porta-voz do povo que lhe dá a luz, reproduzindo a realidade existencial na qual esse povo está imerso. Falando em termos de música (campo da arte do qual tenho mais conhecimento), vemos os mais diversos estilos musicais retratando o dia-a-dia das comunidades onde nascem e vivem os artistas. No Brasil, temos inúmeros exemplos. O baião e o sertanejo nascem cantando a vida no campo, a seca, a fome, a devoção religiosa (notadamente o Catolicismo Popular de matriz ibérica), e a saudade de quem precisou tentar uma vida melhor na cidade grande, às vezes tendo que deixar para trás a família, a mulher e os filhos. O samba retrata a realidade do homem marginalizado nas grandes cidades, o cotidiano das comunidades carentes, a identidade cultural do brasileiro afro-descendente, bem como a discriminação histórica por ele sofrida (assim como originalmente fazia o Blues nos Estados Unidos). Os estilos sulistas celebram as tradições gaúchas, por terem nascido de um povo que teve de deixar seus países de origem para tentar uma vida nova no Brasil, e trazem até hoje consigo o zelo por suas antigas tradições. E mesmo o rock, importado de terras estrangeiras, onde dá voz às importantes transformações sociais, culturais, políticas e até científicas do mundo a partir da segunda metade do século XX, exerce papel semelhante na cultura brasileira. Enfim, como qualquer forma de arte, a música é expressão do imaginário das pessoas dos lugares onde ela é produzida.
                Não há nada pior para uma manifestação artística, em termos da perda de seu valor cultural, do que essa manifestação deixar de ser cultura popular, para se tornar cultura de massa. Pode até ser maravilhoso em termos financeiros para alguns artistas, e principalmente para seus empresários, quando a arte por eles produzida suplanta os limites culturais onde ela é gestada, para atingir o grande público. Teoricamente essa massificação seria benéfica: expandir o modus vivendi de um povo para além de suas fronteiras seria fazer outros indivíduos, que foram formados em culturas diferentes, tomarem conhecimento da realidade sócio-cultural desse povo, e assim outras pessoas passariam a conhecer sua preciosidade cultural, bem como suas mazelas existenciais. Mas na prática não é assim. Sempre que uma determinada manifestação cultural é transformada em cultura de massa, para ser vendida ao grande público, ela passa por uma espécie de “pasteurização cultural”, processo no qual ela perde suas raízes, e se torna uma espécie de “expressão artística genérica universal”. Ela deixa de ter uma identidade cultural própria, e passa a repetir um tema comum já massificado, a fim de poder ser consumida por um público que está habituado a utilizar a arte apenas como mecanismo de entretenimento, e não como forma de conhecer outras expressões culturais.
                Qual seria essa temática genérica escolhida por nossos mecanismos de controle social para substituir as diversas expressões culturais locais? Simplesmente escolheram o amor, e nos convenceram de que o amor é um tema universal e eterno, enquanto as diferentes culturas são locais e temporárias. Assim, o baião e o sertanejo deixam de cantar o homem do campo, o samba deixa de cantar a realidade do negro carente e marginalizado nas grandes cidades, e o rock deixa de cantar as grandes transformações do mundo. Todos passam a falar apenas de amor (só a música sulista segue fiel às suas raízes, mas ela na verdade jamais chegou a ser cultura de massa: a gente só ouve música sulista se viajar até o sul). Mas na verdade, é um amor do tipo “Rede Globo”, também “pasteurizado”. Essa concepção não leva em consideração o fato de que mesmo o amor tem suas diferentes expressões. O amor enquanto sentimento pode até ser universal, mas as formas de se expressar e vivenciar esse sentimento variam no tempo e no espaço (isso por si só é tema para um estudo à parte).
                Existem outras razões para nossos mecanismos de poder quererem eliminar as especificidades das manifestações culturais transformadas em cultura de massa, em nome de um tema único. Uma manifestação artística que atinja o grande público sem perder suas raízes culturais faria com que muitas pessoas tomassem conhecimento de outras culturas. Isso também implicaria em muitas pessoas conhecendo os problemas de quem vive outras realidades culturais, sociais e econômicas, e talvez a conclusão lógica desse intercâmbio cultural fosse: “todo mundo tem problemas dessa natureza, não ocorre apenas comigo”. O resultado seria fatalmente uma cobrança maior por parte do povo, para que as autoridades tomem uma atitude. O povo, quanto mais unido, mais difícil é de ser vencido. Além disso, o próprio indivíduo formado na sociedade onde a manifestação cultural tornada cultura de massa foi gestada, de tanto ouvir a versão “pasteurizada” da arte de seu povo, acaba perdendo sua própria identidade cultural, para assumir a cultura de massa, notadamente alienada, que só sabe falar do “amor de Rede Globo”. Em ambos os casos, nossos mecanismos de poder conseguem ter controle mais efetivo sobre as massas.
                Vamos a alguns exemplos práticos. Começando pelo sertanejo, cito uma canção intitulada “Queimadas”, gravada pela dupla caipira formada pelos irmãos Pena Branca e Xavantinho, ambos já falecidos:

Este chão abençoado
Tão disposto a céu aberto
Esquecido pelo homem
Agora vira um deserto
São pedaços de riqueza
Devorada como a peste
Veio a seca e tomou conta
Do sertão do meu Nordeste

Seu dotô o quê que eu faço
Pra acabar com tanta mágoa
Entre nuvens de poeira
Tudo é seca e não tem água
Na cacimba só tem lama
E o açude virou pó
Nos olhos daquela gente
Corre pranto que faz dó

Minhas vaquinhas morreram
Meu jumento já se foi
Só resta lá na catinga
A carcaça do meu boi
É assim que a gente sente
Lastimando a sorte ingrata
Tenha dó da nossa gente
E ajude um cabeça chata


                Não há como ouvir essa canção sem refletir sobre o problema histórico da seca no nordeste, e é exatamente isso que nossos mecanismos de poder não querem que aconteça. Qual a solução? É simples, basta transformar a música sertaneja em algo parecido com isso:

Te dei o sol, te dei o mar
Pra ganhar seu coração.
Você é raio de saudade,
Meteoro da paixão,
Explosão de sentimentos
Que eu não pude acreditar.
Ah! Como é bom poder te amar!

Depois que eu te conheci fui mais feliz.
Você é exatamente o que eu sempre quis.
Ela se encaixa perfeitamente em mim.
O nosso quebra-cabeça teve fim.

Se for sonho não me acorde;
Eu preciso flutuar,
Pois só quem sonha
Consegue alcançar.

Tão veloz quanto a luz
Pelo universo eu viajei.
Vem! Me guia, me conduz,
Que pra sempre te amarei


                Coloca-se então um cantor jovem e bonitinho, que fará com que as meninas queiram alguém como ele, e com que os meninos queiram ser como ele, para conseguir as meninas. E assim todo mundo só pensa em namorar. Seca no Nordeste? Ninguém nem mais lembra que existe. Luan Santana não tem a menor noção disso, mas ele presta um desserviço à cultura brasileira.
                Agora vamos ao samba. Citarei o samba-enredo da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, do ano de 1988, intitulado “Cem Anos de Liberdade, Realidade e Ilusão”, alusivo ao centenário da assinatura da Lei Áurea:

O negro samba
Negro joga capoeira
Ele é o rei na verde e rosa da Mangueira

Será...
Que já raiou a liberdade
Ou se foi tudo ilusão
Será...
Que a lei áurea tão sonhada
Há tanto tempo assinada
Não foi o fim da escravidão
Hoje dentro da realidade
Onde está a liberdade
Onde está que ninguém viu
Moço
Não se esqueça que o negro também construiu
As riquezas do nosso brasil

Pergunte ao criador
Quem pintou esta aquarela
Livre do açoite da senzala
Preso na miséria da favela

Sonhei...
Que zumbi dos palmares voltou
A tristeza do negro acabou
Foi uma nova redenção

Senhor..
Eis a luta do bem contra o mal
Que tanto sangue derramou
Contra o preconceito racial


                Quanta consciência histórica teríamos, e que força ganhariam os movimentos sociais que lutam contra as mais diferentes formas de discriminação, se mais sambas assim fossem compostos? Mas as pessoas ficam mais facilmente manipuláveis se forem marteladas em seus ouvidos coisas como:

Abandonado, assim que eu me sinto longe de você,
Despreparado, meu coração dá pulo perto de você,
E quanto mais o tempo passa, mais aumenta essa vontade,
O que posso fazer?
Se quando beijo outra boca lembro sua voz tão rouca me pedindo pra fazer
Carinho gostoso, amor venenoso

To preocupado, será que não consigo mais te esquecer?
Desesperado, procuro uma forma de não te querer
Mas quando a gente se encontra, o amor sempre apronta
Não consigo conter
Por mais que eu diga que não quero
Toda noite te espero com vontade de fazer
Carinho gostoso, amor venenoso

Faz amor comigo, sem ter hora pra acabar
Mesmo que for só por essa noite
Eu não quero nem saber, quero amar você
Faz amor comigo até o dia clarear
To ligado, sei que vou sofrer
Mas eu não quero nem saber, quero amar você


                E olha que o Exaltasamba faz questão de cometer a heresia de se auto-intitular “Samba de Raiz”. Que Cartola, Noel Rosa, João Nogueira, entre outros que já nos deixaram, não ouçam isso!
                Mas o pior fica por conta do rock. Sempre subversivo por natureza, rebelde por definição, até o rock no Brasil foi transformado em um meloso desfile brega-romântico sem o menor senso estético, sem força nem poesia. Quero citar três trechos de canções do rock dos anos 80, para dar uma idéia de seu poder como agente de transformação. E serão apenas citações de canções pop-rock, de artistas que participaram e participam de programas de fim de ano da Rede Globo. Se eu citasse movimentos mais engajados, como o movimento Punk, a situação seria mais grave. Mas vamos às canções, começando com Cazuza:

Brasil!
Mostra tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil!
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim...

(trecho de “Brasil”)

                Agora passamos a Lobão:

A favela é a nova senzala, correntes da velha tribo
E a sala é a nova cela, prisioneiros nas grades do vídeo
E se o sol ainda nasce quadrado, a gente ainda paga por isso

Eu não quero mais nenhuma chance
Eu não quero mais revanche!
(trecho de “Revanche”)

                E por fim, Ultraje a Rigor. Essa canção foi tema de abertura de novela da Rede Globo. Muita gente a considerou pornográfica, sem perceber que na ironia das figuras de linguagem estava escondida uma seríssima crítica social:

Indecente
É você ter que ficar
Despido de cultura
Daí não tem jeito
Quando a coisa fica dura
Sem roupa, sem saúde
Sem casa, tudo é tão imoral
A barriga pelada
É que é a vergonha nacional

(trecho de “Pelado”)

                Apenas a título de informação: “barriga pelada” quer dizer FOME. Mas o que fizeram com o “bom e velho rock’n’roll”? Dói na alma constatar, mas fizeram isso:

E eu sei que assim talvez seja melhor
Mas não espero ver você voltar
E dizer que podemos recomeçar

E as noites que em claro eu passei
Só pra entender ou enxergar onde eu errei
E de nada valeram depois do fim

E hoje sei (eu sei)
E hoje sei, sei, sei
Não importa mais
Porque não vai, vai, vai
Voltar atrás
O que restou em mim

E não vou mudar e nem tentar entender
O que aconteceu ou vai acontecer
Nossa história teve um fim

E eu sei que assim talvez seja melhor
Mas não espero ver você voltar
E dizer que podemos recomeçar

E hoje estava pensando em você
Em tudo que eu queria te dizer
Mas não tive coragem de falar

E não vou mudar e nem tentar entender
O que aconteceu ou vai acontecer
Nossa história teve um fim


                E a banda Restart ainda imagina que as roupinhas coloridas são um ato de rebeldia? Além de apenas fazer com que eles fiquem parecendo calopsitas gigantes, artistas como David Bowie, Alice Cooper, e no Brasil os Secos e Molhados, já ostentavam aparências bizarras há décadas atrás, mas com uma diferença: a música tinha qualidade, e abordava diversos temas.
                Longe de mim ser contra canções de amor; eu mesmo já compus algumas. Sou contra um artista passar toda uma carreira discorrendo sobre o mesmo tema (não é, Zezé de Camargo?). Eles não sabem falar de outra coisa, não pensam em outra coisa. Será possível que existam pessoas tão limitadas assim? E essa pergunta vale tanto para os produtores quanto para os consumidores desse tipo de música. Até o Axé, ritmo alienado por definição, produto descartável para consumo rápido no Carnaval e nas micaretas, pode ir além. Moraes Moreira gravou uma canção intitulada “Cidadão”, que só não é considerada um Axé porque  foi gravada antes da criação desse rótulo. Eis a letra:

Na mão do poeta
O sol se levanta
E a lua se deita
Na côncava praça
Aponta o poente
O apronte o levante
Crescente da massa

Aos pés do poeta
A raça descansa
De olho na festa
E o céu abençoa
Essa fé tão profana
Oh! Minha gente baiana
Goza mesmo que doa

Abolição
No coração do poeta
Cabe a multidão
Quem sabe essa praça repleta

Navio negreiro já era
Agora quem manda é a galera
Nessa cidade nação
Cidadão
                Meu leitor pode estranhar o fato de eu não citar o funk carioca. Podem me processar, usando a lei que nos obriga a nos referirmos ao funk como cultura (grotesco, isso), mas o funk nunca representou a cultura dos meios onde ele é produzido. Ele já nasceu pasteurizado. O funk do Silva e o do “Eu só quero é ser feliz” são exemplos isolados, nunca foram a regra do movimento.
Concluindo, falemos de amor, mas falemos com poesia. E falemos também de outros assuntos. Afinal, o universo é mais complexo do que a namoradinha de fim de semana, e se não pensarmos em nossos problemas, eles certamente aumentarão de tamanho. Se não percebermos o quanto tentam nos alienar e manipular, seremos cada vez mais manipuláveis e alienados. Tentemos usar a nossa própria mente para fazer a diferença! Resgatemos a riqueza de nossas diferentes manifestações artísticas e culturais: o povo sofrido e esquecido agradece!