quarta-feira, 20 de outubro de 2010

CONFISSÃO E DESABAFO



Desde quando tomei a decisão de publicar os textos contendo minhas reflexões filosóficas em um blog, tenho recebido o retorno de muitos “leitores”, a maioria elogiando os assuntos abordados, a forma como são abordados, minha “sensibilidade” e “percepção” da vida, enfim, as pessoas vêem um trabalho de alguém que tem algo a dizer. Em pouco mais de um mês no ar, o blog ultrapassou a marca de 300 acessos. Nada mal para um blog que trata de temas densos.
Mas eu preciso fazer uma confissão, em nome da verdade pura e simples: provavelmente todos os meus leitores irão supor uma obrigatória coerência entre minhas palavras e minhas atitudes. Eu viveria, então, uma vida calcada em todos os valores que defendo em meus textos. Isso fatalmente faria de mim uma pessoa genial, uma verdadeira mistura de filósofo, poeta e santo, como sugere o título do blog. Aliás, façam fila, meninas, pois vocês estão diante de um bom partido! Bom, gente, essa última frase foi uma piada. Na verdade, existe em mim, como em quase todo ser humano, uma distância, às vezes abismal, entre as coisas que falo ou escrevo, os valores que defendo, e a forma como realmente vivo, e muitas vezes isso nem é culpa minha. Ter ciência de algo ser certo e colocar esse algo em prática são duas coisas diferentes.
Antes de qualquer coisa sou um ser humano, sujeito a alegrias e tristezas, a paixões e sonhos, a medos, dúvidas e angústias, a egoísmos e mesquinharias, aos sofrimentos e mazelas da vida. Sou capaz dos mais sublimes gestos de bondade, mas também das mais vis atrocidades. E exatamente essa condição paradoxal é o fator a me constituir humano. Com isso, um dos principais leitores de meus textos acaba sendo eu mesmo. Por diversas vezes, o alvo da crítica em meus escritos não é nada nem ninguém além de mim. Sou eu me admoestando, apresentando a mim mesmo uma saída sábia e digna para situações nas quais eu não agi bem. Sou eu me dizendo claramente: “você deveria ter agido dessa forma, mas não o fez!”
Jesus não foi como nós. Pelo menos não o Jesus da Fé. Os primeiros cristãos viram em Jesus uma coerência tão radical entre as coisas que Ele dizia e suas atitudes, que não foram capazes de escapar da conclusão: esse homem não pode ser apenas humano, ele também precisa ser Deus.
Na Bíblia, Novo Testamento, Epístola aos Romanos, o apóstolo Paulo faz uma interessante reflexão: ele percebe que conhece a lei de Deus, quer praticá-la, mas simplesmente não consegue, ficando sempre compelido a fazer aquilo que sabe ser errado. Paulo atribui isso à condição pecaminosa inerente ao homem, e conclui que a única coisa capaz de livrá-lo dessas amarras é o amor de Deus, expresso em Jesus de Nazaré.
Na Epístola aos Filipenses, o autor declara em alto e bom som a condição divina de Jesus. No entanto, o mesmo texto afirma ter Jesus se esvaziado de sua divindade na Encarnação, tornando-se como os homens. Qual o significado disso? Teria Jesus se tornado um ser humano qualquer, esse paradoxo produtor de bondades e de maldades aglutinado no mesmo ser? De acordo com o que penso sobre a morte de Jesus, isso não procede: Jesus identificou-se com a raça humana não por ter cometido os mesmo erros, mas apenas por sofrer junto dela os mesmos sofrimentos. Jesus viveu e morreu na cruz por nossos pecados, mas sua intenção não era pagar por eles, mas sim sentir em seu próprio ser, em suas entranhas, todas as suas conseqüências. Essa forma de entender o sacrifício de Cristo nem é muito comum no cristianismo histórico, mas a considero a melhor forma de entender essa questão.
Na pessoa de Jesus de Nazaré, Deus em pessoa veio até nós, para experimentar a nossa dor, e no Evangelho de João, Jesus nos dá o mais importante dos mandamentos: que nós, seres humanos, nos amemos uns aos outros, como Ele nos amou. Isso nos obriga a também nós nos identificarmos com a miséria, com o erro, com o pecado alheio. Até mesmo o mais torpe dos criminosos merece nossa compaixão. Mesmo porque poderia ser nós no lugar deles, cometendo os mesmos crimes, e carecendo de compaixão tanto quanto eles. A diferença entre um criminoso e um homem de bem muitas vezes pode ser explicada pelas diferenças na história de vida de cada um deles.
A Primeira Epístola de João chama de mentiroso quem diz amar a Deus e não amar ao próximo, porque não há como amar a Deus, que não vemos, sem antes amar ao próximo, que podemos ver, com o qual podemos interagir. Mais importante ainda: sendo nós imagem e semelhança de Deus, como o primeiro livro do Velho Testamento afirma, a melhor maneira de amar a Deus, que é intangível, é através de sua imagem e semelhança. Em outras palavras, o serviço a Deus passa invariavelmente pelo serviço ao homem. A Bíblia condena que se façam imagens de Deus exatamente porque não precisamos delas. O próprio Deus nos deu uma imagem Dele mesmo para que O sirvamos através dela, e essa imagem se chama SER HUMANO.
Portanto, amados leitores, caso vocês me vejam contradizer todas as coisas que defendo com unhas e dentes, por qualquer fraqueza minha, peço tão somente essa compaixão que se identifica com todo sofrimento. Como todo ser humano, sei o que é certo, mas nem sempre pratico o que é certo, e só o perdão pode me apontar uma saída para fazer melhor da próxima vez.

2 comentários:

Marcus Vinícius disse...

Ok Rodrigo, referências bíblicas de certa forma pode ser tanto válido quanto discutível, por se tratar de um livro cheio certezas e verdades "indiscutíveis e inquestionáveis", sabemos bem quanta carnificina tráz a humanidade (mesmos nos dias atuais) aprisionar-se em verdades absolutas, em dógmas de livros sagrados. Não posso tomar como verdades absolutas conceitos de um livro escrito, concebido, redigido, editado e impresso no mundo ocidental então conhecido, sem se quer citar a existência de outros povos. Lógico que pode ser uma visão um pouco simplista da minha parte, mas aí vem a dúvida de qual livro é mais sagrado: a bíblia cristã, a torá, o alcorão e afins...

rodrigopsi disse...

Não considero a Bíblia o único meio válido pelo qual Deus se comunica com o homem, mas tenho certeza de que podemos tirar dela lições importantíssimas, e reparem que raramente eu cito a Bíblia sem ser de forma indireta. Várias vezes eu digo coisas como "de acordo com o Cristianismo Histórico", e por aí vai. Eu disse também não crer em uma volta física e histórica de Jesus. Sou cristão, retiro meus valores majoritariamente dos textos bíblicos, mas não unicamente deles. A Bíblia é meu ponto de referência, embora eu reconheça que existam outros.